LIÇÕES DE ABISMO

Lições nós sabemos o que sejam. São ensinamentos dirigidos à nossa inteligência e razão com o objetivo de orientá-las no exercício de sua atividade específica. Funciona como um tônico contra a ignorância e a alienação consentidas. Mestres são aqueles que nos passam estas lições. Como tais, tem que conhecer muito bem aquilo que nos pretendem transmitir, sob pena de não merecer credibilidade. Não necessitam ser necessariamente seres humanos. Até mesmo uma formiga ou acontecimentos podem vir a ser grandes mestres para nós. É o caso do abismo a que nos referimos. Dele é possível auferir grandes lições, como veremos em seguida.

O que é o abismo? É nos possível defini-lo como sendo o extremo a que pode chegar uma determinada situação, ou seja, o resultado final de um processo degenerativo qualquer. A perversidade, por exemplo, quando atinge o limite da saturação, transforma-se em abismo. Em nossa caminhada histórica nos deparamos, freqüentemente com abismos. Vamos nos acercar de alguns deles para sentirmos suas dimensões e voragem.

A corrupção é hoje um fenômeno muito familiar à nossa sociedade e tende a atingir proporções abissais. Corrupção significa a progressiva desintegração de um ser, mediante à ação de fatores internos e externos tendentes à sua destruição total. É sempre um processo lento, com indícios quase imperceptíveis: um germe nocivo que penetra e prolifera, ou que já dentro do ser, encontra possibilidades favoráveis para a sua ação destruidora. A corrupção moral é uma depravação progressiva dos costumes, pela qual, um indivíduo, incapaz de impor princípios à sua vida, acaba por considerar a própria vida como norma válida para os outros. É o que dizia Montaine a uns quinhentos anos atrás: “Parce que nous ne vivons pas nos maxime, nous maximons notre vie”. Sem normas na vida, impomos nossa vida como norma para os outros. Ninguém nasce ladrão e ninguém se inicia no mal cometendo logo um crime espetacular. Antes de chegar lá, houve uma lenta preparação interior: uma insensibilidade crescente pelos direitos alheios, uma sedução cada vez mais forte e consentida pelas vantagens presumidas do crime, até que condições favoráveis induzam ao gesto criminoso. A profilaxia é a ciência e a técnica de prevenir os contágios. Sem uma profilaxia moral, um constante autocontrole, é grande o risco de contágio que conduz à corrupção moral, isto é, ao domínio absoluto dos instintos e caprichos sobre a vontade, o que acaba por arruinar totalmente o indivíduo. O corrupto não tem escrúpulos morais nem respeito aos direitos alheios, tudo vale para realizar seus desejos insaciáveis, até ao momento em que se rompe o equilíbrio interior e começa inexoravelmente a destruição. É impressionante como isto que acabamos de afirmar se aplica à nossa sociedade. Em qualquer setor da vida pública que se mexa aflora a corrupção que anda oculta nos indivíduos e nas instituições. É o que se tem revelado através das inúmeras Comissões Parlamentares de Inquérito que se instalam pelo país e das sindicâncias levadas a efeito pelo Ministério Público e pelas Polícias. A corrupção é um estado de espírito que se transformou em norma das ações da maioria de nosso povo. O que é a grande jogada das drogas senão uma maneira corrupta de se enriquecer?

A corrupção administrativa é o aproveitamento sistemático de cargo Público para a satisfação de interesses pessoais, comumente de natureza pecuniária, ou tentativa de subornar a autoridade com o mesmo objetivo. Uma administração corrupta, não preenchendo sua missão essencial de serviço ao público, cria neste um sentimento generalizado de insatisfação, retrato fiel do que acontece no Brasil, e outros países. E como nosso povo está descontente!... Falta pouco, muito pouco, para que esta situação atinja os limites do abismo da destruição. Todas as derrocadas dos grandes impérios, de grandes economias e empresas foram precedidas de corrupção e por ela ocasionadas.

A corrupção dos costumes atinge o homem em sua própria essência. O equilíbrio entre o animal e o racional vai se rompendo e o animal tenta impor seu domínio. É o que podemos qualificar de abismo metafísico. Nós nos abismamos perante as proporções alcançadas pela degeneração dos costumes mas não nos convencemos de que é urgente, urgentíssima, uma tomada de posição. O tempo se escoa com a rapidez da torrente que avança para o mar arrastando consigo tudo o que encontra pela frente.

São muitos os abismos que se abrem a nossos pés, mas incrivelmente, caminhamos para eles como o bovino para o matadouro. Diz o provérbio que Deus quando quer deitar alguém a perder, primeiro o enlouquece. Loucura, é esta a conduta do homem em sua marcha em direção ao abismo, rumo às torres da corrupção.

José Cândido de Castro

NOVEMBRO de 2001


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Prof. José Cândido de  Castro
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