Entre os diversos ângulos sob os quais podemos focalizar a violência, dois, em especial, são bastante para o intuito que temos de discorrer sobre este tema. Violência é a agressão praticada contra o ser humano. Pode esta agressão ser física ou psicológica. A violência física é a forma mais grosseira de agredir. Já a psicológica é sutil e perversa porque, quase sempre, direcionada contra as pessoas mais inexperientes e vulneráveis, no caso, as crianças e os adolescentes. A infância e a adolescência são as classes mais desprotegidas contra a ação da violência e do crime.
Com efeito, os pais, baluartes naturais de defesa contra os ataques dos predadores de inocentes, hoje em dia, não passam de meros reprodutores. Reproduzem e, em seguida, abandonam suas crias à voracidade dos abutres sociais que, depois de devorarem suas carnes, devolvem aos pais os ossos. Daí para diante, além de meros reprodutores, passam a ser também, roedores de ossos. A infância é a fase da vida humana que se caracteriza por sua grande dependência de seus genitores e da família em geral. A criança carece fundamentalmente dos desvelos de seus pais. Acontece, porém, que a família entrou em regime de falência e a infância cresce ao Deus dará. A mais grave violência praticada contra a infância consiste no abandono dos pais que a deixam à mercê da própria inexperiência e sem as defesas de que carece para não ser iludida e induzida à aquisição de maus hábitos. Não educar é o mesmo que abandonar a criança ao próprio destino, com todos os seus flancos abertos ao ataque do inimigo. É por aqui que se deve entender a violência contra a criança: no descaso e na omissão da Família e da Escola.
A adolescência, por seu turno, ponte de passagem da infância para a idade adulta, caracteriza-se por mudanças profundas que atingem o ser humano sob múltiplos aspectos. É a idade em que estrutura a personalidade e se plasma o caráter. Estas mudanças alcançam o ser humano sob dois aspectos fundamentais: o biopsicológico e o sociocultural. O primeiro se revela, principalmente por: aceleração do crescimento físico, transformações física marcantes como aparecimento dos caracteres sexuais secundários, vida emocional fortemente influenciada por preocupações de natureza sexual, amadurecimento mais rápido da mentalidade, acréscimo de sensibilidade e de sentido ético e estético, irrupção de impulsos e tendências e diversificação de interesses. Do ponto de vista sociocultural, o adolescente apresenta, entre outras manifestações: aumento de espírito crítico, culto à personalidade, preocupação altruística, vacilações religiosas, afetividade transbordante, acentuação de espírito gregário, sede de prestígio, timidez e arrogância, inconformismo, variações de excessivo entusiasmo a profundas depressões.
Todo ser humano nasce, ao menos, duas vezes: a primeira, quando se destaca do organismo materno, vem à luz e se afirma como organismo distinto. Uma vez vindo à luz, ele continua envolvido, digamos, num seio afetivo, num organismo emocional. A adolescência é um arrancar-se deste organismo emocional e o afirmar-se como pessoa. A adolescência é, pois um segundo nascimento, é o parto do ser racional. Muitos pais não se dão conta da formidável importância deste acontecimento: a entrada da adolescência. É uma outra vida que começa, a racional, a consciente. Se a criança chegar a este parto já comprometida com anomalias, então não irá além de um feto abortivo racionalmente entendido.
Esta distinção fundamental entre duas vidas do ser humano, anterior e posterior a estes dois nascimentos, impõe necessariamente uma fundamental diferença de métodos educativos, perfeito paralelismo entre as duas vidas do organismo físico: anterior e a posterior ao primeiro nascimento. Na vida intrauterina, o organismo materno se impõe ao organismo que leva nas entranhas. É um processo autoritário. Depois que a criança nasce, os pais colaboram com ela, fornecendo-lhe os alimentos que deve assimilar para se desenvolver. O mesmo se passa na educação. No primeiro período, anterior à adolescência, só há um método de educação. É o método autoritário: impor comportamentos e atitudes à criança para equipa-la de hábitos que a preparem para a vida. Depois, porém, que a criança entrou na adolescência e se afirma como pessoa, só há um método eficaz: o da colaboração e do diálogo. Os pais, por seus exemplos, principalmente, e por seus conselhos como mais experimentados, colaboram com o adolescente à base de uma absoluta confiança mútua. A ausência de autoridade só prepara autônomos e libertinos, o excesso de autoridade só produz revoltados. Só a compreensão e a simpatia dos educadores, neste período de vida caracterizado por conflitos e desequilíbrios, podem oferecer ao adolescente as condições para que atinja o desenvolvimento harmonioso das potencialidades com que Deus o dotou. Atividades escolares, recreação sadia, alimentação adequada, ambiente de ordem, de afeto e de paz no lar são os melhores fatores para que esta fase de transição, tão importante para a formação da personalidade, possa realizar-se sem choques e sem desvios, infelizmente, numerosos em todo o mundo, nos tempos atuais.
A adolescência é como uma casa desocupada. Pertencerá ao que chegar primeiro. Se for o animal, será então ocupada por um violento, um criminoso ou qualquer outro representante do reino animal. Se, ao contrário, for um ser racional que tome posse de suas dependências, seu habitante será um cidadão no sentido pleno da palavra. Infelizmente, está prevalecendo o animal que se impõe por todo o tipo de violência física e psicológica. Sobre os pais e mestres recai a delicada tarefa de ajudar o adolescente a encontrar-se a si mesmo e impedir que o inimigo invada sua intimidade e o transforme numa fera pronta para atacar.
Nunca será demais acentuar que, sem o regate da família e da escola na sua função de plasmadores do ser racional, será impossível impedir que o animal suplante o racional e instale a violência como norma do relacionamento humano. Voltamos ao dente por dente e ao olho por olho. A estas alturas de nossa história, esta eclosão de violência, representa um retrocesso a era da pedra lascada, ao direito de matar implantado por Caim.
José Cândido de Castro
JUNHO DE 2001