Todos sabemos, todos comentamos, todos lamentamos, ninguém, contudo, se move quando se trata de tomar uma atitude. Repete-se a postura de um grupo que presencia, sem reação, um duelo de morte.
Nossa escola está morrendo porque atingiu seu derradeiro grau de decadência. A escola como toda a instituição humana, se enquadra num processo de entropia que permite avaliar a degradação da energia de seu sistema. A entropia do sistema escolar caracteriza seu grau de desordem e, via de conseqüência, de sua decadência. Dizem os estudiosos que, no mundo físico, nada se ganha nada se perde tudo se transforma. No mundo espiritual e moral, contudo, as coisas não acontecem bem assim porque, neste campo, as transformações, quase sempre, redundam em perdas, principalmente quando são atingidas verdades axiomáticas.
O conceito de escola resulta do acasalamento de dois termos essenciais: instruir e educar. A união destes dois elementos constitui o que qualificamos de essência metafísica da escola, a tal ponde que, a ausência de um descaracteriza a fisionomia do todo.
INSTRUIR SIGNIFICA passar conhecimentos objetivos sobre determinado assunto. A objetividade é o pilar sobre o qual se apóia toda a verdadeira e sólida instrução. É esta objetividade que injeta no testemunho histórico seu caráter de conhecimento científico. A maior parte do conhecimento humano se aufere do testemunho histórico donde a necessidade de se escoimá-lo de todo e qualquer subjetivismo que interfira no mecanismo cognoscitivo a ponto de vermos a verdade, não como ela é, mas como gostaríamos que fosse. O subjetivismo, eis o pior vício que contamina a instrução em nossas escolas. Com efeito, a maioria de nossos professores se empenha mais em passar a seus alunos suas opiniões pessoais do que propriamente a verdade científica. A soma de opiniões forma apenas mais uma opinião e não a verdade. O resultado é a contaminação dos conhecimentos pelo subjetivismo que aparece no exercício das várias profissões, como reconhece uma desembargadora do Tribunal de Justiça de Minas Gerais ao referir-se à má qualidade da justiça praticada no Brasil. E olhe que subjetivismo em justiça redunda na pior das injustiças.
Nossa escola está morrendo, certamente, porque nossos professores não transmitem mais aos nossos alunos conhecimentos objetivos de que necessitam para a prática correta de suas profissões. Intrigas políticas, ideologias, cepticismo religioso, deturpação dos fatos, estas são as iguarias depositadas sobre as cátedras de nossas escolas e servidas fartamente à nossa juventude nesta fase da vida, fase em que os grandes sábios do passado acumularam o acervo de conhecimentos que lhes permitiu, mais tarde, elaborar suas sínteses geniais. Passada esta fase em futilidades e distrações, só resta um destino para o homem: a mediocridade intelectual, quando não, o surgimento do gangsterismo cultural. É por aqui que deve começar o processo de ressuscitação da escola, pela reciclagem total do corpo docente, principalmente no que diz respeito à seleção de candidatos ao cargo.
Não é nossa intenção aprofundar, agora, o estudo das causas que levaram nossos mestres a desertar dos legítimos rumos da mais nobre das profissões. Fá-lo-emos numa próxima oportunidade.
EDUCAR , eis o outro pólo sobre o qual gira a escola. É o pólo norte, diríamos, se atentar-mos para sua característica de orientador. A educação é o processo de gestação do ser racional. É direito natural da família e dever da escola por delegação dos pais. Consiste, essencialmente, na formação do homem de caráter. É um processo vital para o qual concorrem as forças naturais e espirituais conjugadas pela ação consciente do educador e a vontade livre do educando. Não pode, pois, ser confundida com o simples desenvolvimento ou crescimento dos seres vivos, nem com a mera adaptação do indivíduo ao meio. É atividade criadora, dinâmica, que visa levar o ser humano a realizar suas potencialidades físicas, intelectuais, morais e espirituais. Não se reduz à preparação para fins exclusivamente utilitários, como uma profissão, nem para o desenvolvimento de características parciais da personalidade, como um dom artístico, mas abrange o homem integral, em todos os aspectos de seu corpo e de sua alma, ou seja, em toda a extensão de sua vida sensível, espiritual, intelectual, moral, individual, doméstica e social, para elevá-la, regula-la e aperfeiçoa-la. É processo contínuo que começa já nas origens do ser humano e se estende até à morte. O primeiro banco em que se assenta o recém-nascido para se educar é o colo de sua mãe. Só que este banco serve, hoje, é para as emancipadas fazerem cafuné no cachaço de marmanjos que andam atrás e outras coisas. É por aí que começa todo este processo educativo que se prolonga através da escola e proporciona à prole os meios necessários para participar da vida em grupo ensinando os rudimentos da linguagem, inculcando os hábitos indispensáveis para que ela possa viver numa sociedade humana. A vida social requer um longo aprendizado que só pode ser ministrado por uma ação perseverante e carinhosa que desce aos mínimos detalhes. É a família que nos ensina a assumir com naturalidade inúmeros comportamentos e atitudes, sem os quais, seriamos uns desajustados e tornaríamos insuportável a vida social. É a família que, pela educação, faz nascer o ser racional, ou por outras, recebe das mãos da parteira aquele animalzinho que brota do seio da mãe e faz dele um ser racional. A família, contudo, está gravemente prejudicada no exercício de seu direito e dever de educadora nata de seus filhos. Fatores, os mais estranhos e perversos, conspiram contra esta instituição. É a própria sociedade que seqüestra do lar os filhos, levam-nos para cativeiros da corrupção, matam-nos, ou então devolvem aos pais verdadeiros farrapos irrecuperáveis. De outra feita voltaremos a este tema para dizer por que a família está ausente no processo da educação. Agora estamos dentro da escola como delegatária auxiliar da educação dos filhos procurando uma explicação para sua falência nesta missão. O que a família espera da escola é uma ação consciente que assegure a manutenção e a consolidação dos princípios básicos de uma concepção de vida inculcados no lar, bem como, dos justos anseios e esperanças com que ela considera o destino de seus filhos que vão muito além de uma vida meramente material e efêmera. A escola, porém, assim como não instrui, muito menos educa, antes contribui, por sua omissão, com este processo de degradação da juventude. Todo aquele que se apresenta à escola como candidato a educador tem que justificar, antes de tudo, sua competência para o exercício de tão elevada quanto responsável missão. A matéria prima de sua atividade não será um pedaço de madeira ou um bloco de pedra, mas um ser humano dotado de alma e livre arbítrio, com destinação que ultrapassa o tempo e mergulha na eternidade. Para tanto tem que comprovar seus conhecimentos científicos, filosóficos, morais, religiosos ou teológicos. Aquele professor que explica a seus alunos, por exemplo, o teorema de Pitágoras, segundo o qual, o quadrado da hipotenusa, ou seja, do lado oposto ao triângulo reto de um triângulo retângulo, é igual à soma dos quadrados dos dois outros lados, não pode parar por aí. Ele deve, nas entrelinhas dar a entender ao educando que o conteúdo deste teorema está inserido nas leis da natureza, que esta natureza tem um autor, que este autor é o Criador do universo no qual vivemos e que representa, apenas, o caminho de volta para nossas origens. Cumpre ainda ao educador advertir ao educando que Pitágoras era um filósofo de moral elevada e vida austera, preocupado com os valores do espírito e chegou ao conhecimento de Deus pelo estudo da natureza. Isto, no século VI antes da era cristã. Do mesmo modo, cumpre ao professor de história não se contentar com narrar fatos e catalogar datas. A história significa muito mais do que isto e é através da interpretação filosófica dos fatos que comemoramos a história como mestra da vida. O Criador, através de suas leis, das leis da natureza e da liberdade humana, intervém no processo histórico de nossas vidas. Nenhum professor de história poderá queimar o tempo de suas aulas contando o número de vítimas ou narrando os estragos produzidos pelas guerras. E assim por diante. Infelizmente, isto não acontece em nossas salas de aula, e consequentemente, não se educa, antes, faz-se o contrário, deseduca-se.
Concluindo, nossa escola entrou em processo de extinção porque deixou de preencher sua finalidade precípua de instruir e educar. Este fato se deve ao total despreparo daqueles que se atreveram assumir tão grave responsabilidade conscientes de que não dispunham de competência para tanto. A situação se acerca celeremente do caos porque, sem educação, é impossível ter vida racional e, sem esta, resta apenas a vida animal que toma conta da maioria, inclusive, dos que governam, depois de aportarem nas praias da administração pública carregando a bagagem do materialismo e do ateísmo que transbordou da queda do muro de Berlim. Para nossos governantes significa apenas acabar com a fome do estômago, tarefa, tipicamente, material e animal e, não matar a fome e sede de justiça que atormenta nosso espírito. Também, coitados, eles não tiveram escola para educá-los e ninguém pode dar o que não recebeu. Este é o espinheiro que se atravessa em nosso caminho. Os que poderiam e deveriam salvar nossa escola não sentem o mínimo estímulo para tanto porque não sabem o que é educar e o que isto significa em termos de salvação da espécie humana. Ninguém deseja o que ignora ou não traz diante do próprio nome o cifrão que fala mais alto do que qualquer outro ideal. É com imenso pesar, mas já estou me preparando para os funerais de nossa escola e para emigrar a outras regiões onde meu espírito possa sobreviver.
José Cândido de Castro
SETEMBRO/2004