NOTÍCIAS DO ALÉM - SEGUNDA EDIÇÃO

Como todo tirano que enfeixa nas próprias mãos um poder absoluto, Satanás, senhor absoluto do Império das Trevas, nos moldes rotineiros, resolveu convocar, ultimamente, seu ministério, objetivando fazer um balanço de suas atividades no findo século vinte, como também para premiar os que se distinguiram na prática do mal ou para espinafrar aqueles seus súditos indolentes que não corresponderam às expectativas. A cerimônia, como de praxe, foi transmitida pela T.V. Quinto dos Infernos. As condecorações foram feitas com a comenda medalha do fogo e suas graduações, representadas por graus centígrados. Os castigos iam, desde o derretimento dos chifres até o resfriamento dos miolos daqueles que revelaram pouca inteligência no manejo das astúcias diabólicas. O ambiente era de extremo calor e a gritaria e o ranger de dentes ensurdecedores. As antenas da transmissora envergavam com o peso do som que circulava por sua fiação.

Como não podia deixar de ser, coube a Satanás a honra de iniciar os trabalhos daquela assembléia infernal. Começou cuspindo fogo e atirando ameaças contra os poderes do bem os quais qualificou de torpes, veados e bajuladores d'Aquele que promete o reino dos céus aos mansos e aos pobres em espírito. Disse que odeia os pobres e elogiou os matadores de mendigos e aos que se negam prestar qualquer tipo de ajuda aos necessitados. Afirmou ainda que a vitória dos avarentos é uma questão de tempo, tempo este que se torna cada vez mais curto para aqueles que se iludem com a idéia do refrigério celestial. A vida é fogo, acentuou ele e, tem mais vida quem joga mais lenha na fogueira da prática do mal. Em seguida, passou a palavra ao Ministro do Planejamento, especialista em astúcias e responsável pela estratégia infernal na difusão do mal pelo mundo.

Fez vários salamaleques, deu cambalhotas e piruetas de saudação ao Chefão que o havia qualificado de tinhoso ao passar-lhe a palavra. Tinhoso é a mãe, retrucou ao Chefão, já que o plano por ele elaborado era perfeito e inigualável. Foram três os temas selecionados para a apreciação da assembléia: a propagação do ateísmo e do materialismo, a cargo do comunismo, do nazismo e do fascismo que denominaram ROBERTO ou eixo entre Roma, Berlim e Tóquio; a incrementação do ódio entre os povos entregue aos senhores das guerras e a camuflagem da corrupção como fat0r de quebra da resistência moral das consciências dos representantes do bem. Esta tarefa correria por conta da Mídia, principalmente ao poder de penetração da televisão. Segundo o ministro planejador, graças a esta estratégia, obtiveram-se conquistas do mais alto significado nos avanços do mal, rumo à vitória final. Deu uma cusparada de fogo na cara de seu secretário que lhe avisara que seu tempo estava esgotado e passou a palavra ao colega Ministro dos Cultos com a advertência de que cuidasse em vender bem suas fanfarrices se não quisesse receber uns arreganhos do Chefão.

Preocupado com impressionar bem e causar impacto, logo no começo de seu espiche, afirmou que, por notícia vazada da T.V. Paraíso dava-se por certo que o Pai Eterno estava gravemente enfermo, em estado depressivo, causado pelo êxito obtido pelas forças do mal na pregação do ateísmo. Em tom triunfalista de autêntico “Furer”, garantiu que, graças ao seu trabalho, os dardos do materialismo e do ateísmo haviam produzido danos irreparáveis nas trincheiras do adversário. Passou então a enumerar os beneméritos desta façanha. A Carlos Marx a quem qualificou Gênio do mal, atribuiu, pela prática do comunismo, os méritos de haver perfurado a casamata da religião cristã com o canhão do ateísmo. Leonardo Boff, seu fiel discípulo e escudeiro, deu corpo a este ateísmo com a famosa teologia da libertação. Procurou dourar a pílula para torná-la mais assimilável pelos tíbios servidores da carne. Foi, por isto, indicado para receber a comenda do fogo no grau de três mil graus centígrados. Elevado foi o número de teólogos, bispos e padres agraciados com a mesma comenda, se bem que, em diferentes graus. Referindo-se ao Padre Quevedo disse que ele tem ajudado bastante com seu questionamento à existência dos demônios. Para eles, nada melhor do que serem tidos como inexistentes. Na opinião, contudo, do capeta ministro, Edir Macedo leva a palma com sua despudorada campanha de desmoralização da religião transformando-a em objeto de comércio. Aludiu a noticia de que Edir havia realizado a façanha de vender sua igreja no Brasil a seu correligionário Marcelo Crivelli, senador da República, para comprar outra nos Estados Unidos, restrita somente a milionários. Por isto, recomendou que lhe fosse concedida a comenda do fogo em seu mais alto grau. A estas alturas, surgiu, partindo da galera menos qualificada dos capetas, uma voz, dizendo que a notícia da doença do Pai Eterno era furada porque Sua Divindade Majestade nunca esteve tão bem e tão Eterna como agora. Então, uma tremenda arruaça tomou conta da assembléia. Satanás, não satisfeito com o desmentido, chamou o ministro de medíocre e incompetente, destituindo-o do cargo. Empunhou um lança-chamas e derreteu os chifres de todos os que provocaram a rebelião. Um insuportável mau cheiro de enxofre derretido impregnou o ambiente. A custo foi restabelecida a desordem. Pode, então, fazer uso da palavra o Ministro do Ódio que já meio ressabiado com a reação desfavorável do Chefão, tratou de valorizar seu trabalho baseado em fatos que não poderiam ser questionados. Aludiu às várias guerras que conseguiu provocar no período e acentuou o fato de que os homens nunca se odiaram tanto como agora. Incrementou a prática do crime e da violência em todas as suas modalidades, em especial, o terrorismo. Osama Bin Laden foi guindado aos foros de autêntico cidadão do Império Satânico e indicado para receber o Oscar do fogo em seu grau mais elevado, com direito a gram colar das labaredas. Sadan Hussein foi censurado por ter conversado muito e feito pouco. Nem sequer soube se esconder, como procedeu Bin Laden, e caiu nas mãos de Bush com grande descrédito para a causa diabólica. O Chefão, desta feita, mostrou-se mais complacente com este relatório, mas asseverou que ainda poderia ter sido melhor.

O último a falar foi o Ministro da Corrupção. Iniciou-se sua parlenga com uma estrepitosa gargalhada ao afirmar que, afinal, pela prática da mais vasta corrupção, ele conseguiu sepultar os velhos tabus dos dez mandamentos, da família, dos bons costumes, do exercício das virtudes, do respeito pela dignidade da mulher e pela exaltação do homossexualismo como extremo da depravação. Afirmou que, hoje, poucos são os que amam a Deus sobre todas as cousas e, muito menos, o próximo como a si mesmos. O pau está quebrando pesado no relacionamento entre os homens. Aquela história de não tomar seu Santo nome em vão virou lenda porque, na prática, Deus não existe mais e sim tão somente o arrogante homem que se declara em luta para afirmar a própria autodeterminação. Guardar domingos e festas nem falar. Os tais domingos e dias santificados só servem para incrementar o comércio ou então lotar as casas de farra e tolerância. Honrar pai e mãe virou história da carochinha. Morte para estes velhos esclerosados, é o grito de guerra que ecoa por estes mundos. Suzane que trucidou seus pais a pauladas para homenagear o namorado maconheiro é tida e apontada como paradigma da juventude contemporânea. Submetida ao teste de DNA foi reconhecida como filha legítima de Satanás, tal a concentração de perversidade detectada em suas veias. O verbo matar é conjugado em todos os tempos, modos e pessoas. O furto é a norma para se enriquecer ilicitamente e a motivação maior para a corrida de encontro aos cargos públicos e à política. O Lalau não deixou de ser contemplado com uma medalhinha pelo ministro corrupto. A castidade é motivo de chacota. A mentira e a fofoca ganharam foro na Mídia. A mulher do próximo não é mais dele, mas de todo mundo, mormente dos tarados sexuais. As coisas alheias passaram a pertencer aos espertalhões e aos que preferem comer o pão com suor do rosto do outro. Depois de descrever os estragos produzidos pela corrupção, o capeta ministro passou a relatar, sempre muito aplaudido, os nomes dos grandes heróis desta façanha infernal. Sugeriu que todos eles fossem agraciados com a comenda do fogo nos seus mais altos graus, a critério, é evidente, de sua majestade, o Belzebu. Na implantação do ateísmo e do materialismo, aparece Carlos Marx em sua teoria de que religião é ópio do povo. Fogo nele, gritou a galera dos favelados infernais. Na destruição da família e corrupção da mulher, a Rede Globo de Televisão foi apontada como campeã absoluta, por ter usado anos a fio do poder demolidor de suas novelas para inculcar nos jovens o espírito de rebelião contra os pais e para prestigiar o crime. Em cada novela, pratica-se uma meia dúzia de assassinatos, exalta-se o amor livre e o sexo explícito e justifica-se a gravidez precoce. Cada mocinha, e mulher criada também, que participa de novela, sai com um bebê nos braços, coonesta-se e legaliza-se o adultério, promove-se o homossexualismo e, pelo que se diz, também o incesto ocupará seu lugar nas futuras novelas. Em novelas, troca-se de mulher como se troca de roupa em tempo de verão. O debochado do ministro elogiou muito a moda pelo sucesso em despir cada vez mais a mulher e fazê-la cada vez mais atração turística das praias, das telas de televisão e dos espetáculos pornográficos. Falta pouco, muito pouco para que a mulher seja pendurada nas portas dos açougues como já é feito pela revista Play Boy nas bancas de jornais. Aliás, o porco do ministro é de opinião que, em matéria de pornografia, a referida revista atingiu a perfeição porque conseguiu provocar tesão até nos espíritos infernais.

Ao final das exposições, Satanás declarou que já estava cheio com tanta baboseira e lançou uma ameaça dizendo que, se no espaço de vinte anos, não dessem conta do recado, estariam todos definitivamente condenados ao fogo do inferno porque é este o tempo que falta para que seu rival Deus acabe com a brincadeira e convoque todos para o acerto final. Revelou particular preocupação com o comportamento dos demônios, cada vez mais inclinados a se parecerem e se comportarem como os homens, especialmente na prática de pouca vergonha no uso do sexo. Seu receio é que este mulherio despudorado que inflaciona as remessas aportadoras ao inferno acabe por encantar os capetas com seus provocantes terminais de esgoto. A sujeira então, seria grande e o inferno viraria um grande motel. Terminado, convidou os presentes para participar de um coquetel que seria servido a base de chumbo derretido e refrigerantes de enxofre.

José Cândido de Castro

SETEMBRO/2004


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Prof. José Cândido de  Castro
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