O poeta latino Virgílio, em sua obra “Os Tristes” (1.1.5) emprega uma expressão que gera perplexidade sobre o conceito de amizade. Diz ele: “Donec felix eris, multos numerabis amicos “ Enquanto fores feliz, contarás com muitos amigos. Este desabafo do poeta parece refletir seu estado de alma com respeito a alguma desilusão sofrida no convívio humano e dá a entender que a amizade se condiciona a algum interesse menos nobre. Assim, no seu pensar, não existe amizade, mas apenas um relacionamento que perdura enquanto houver algum proveito que dele se possa auferir. A história de Jó se afina com esta idéia porque, quando ele atingiu o fundo do poço de sua desventura, lançou aos amigos, “tenham piedade de mim” (Jô 19.24). Em resposta, contudo, recebeu indiferença, desprezo e até injúrias.
É este um tema desafiante porque requer, de nossa parte, ao tratá-lo, muita sinceridade e honestidade. Somente uma introspecção profunda da alma de cada um de nós poderá confirmar se esta afirmativa do poeta tem ou não fundamento. Trata-se de uma posição muito subjetiva porque, na verdade, tão somente cada um tem condições de ficar sabendo se sua amizade é pura e desinteressada. Ora, o subjetivo não gera conhecimento científico, justamente por não ser objetivo. Na verdade, é muito difícil separar o interesse da amizade pura, isto é, de afeto despido de qualquer intenção de receber do amigo algum gesto compensador.
As próprias Sagradas Escrituras (Luc. 16.9), de maneira até mesmo surpreendente, recomenda usar o dinheiro injusto para fazer amigos e assim, quando o dinheiro faltar, os amigos receberão vocês nas moradas eternas. O adágio popular acrescenta que quem encontra um amigo, encontra um tesouro. Este tesouro pode ser entendido no sentido de vantagens materiais ou no desfrute de uma reciprocidade espiritual que preencha as lacunas que cada um de nós tenha na busca da felicidade. Com certeza, o conceito de amizade pura exclui qualquer vezo de egoísmo. Sabe-se que o egoísmo é o sentimento mais avassalador da alma humana. Uma coisa é o conceito que temos de amizade pura e outra a prática deste conceito. Não negamos que a alma humana seja capaz de praticar uma amizade pura. Afirmamos apenas que, nos caminhos da vida, a única amizade pura e despida de qualquer interesse que conhecemos é a de Deus para com o ser humano, não porém, a do homem para com Deus e para com seus semelhantes. São Mateus (10.36) nos adverte que os inimigos do homem são seus familiares e Plauto (Asinaria. II.4.88) completa este pensamento quando afirma que o homem é lobo para o homem.
São os mistérios em que se perde nosso esforço na busca da verdade. Temos que nos contentar com nossa limitação, principalmente na área do conhecimento. O mundo espiritual é o que mais foge de nosso alcance porque não se pode pretender enxergar através do espelho da carne a sofisticada estrutura do espírito. São Paulo (1 Cor.13.12) viveu o mesmo drama. “Agora vemos em espelho e de maneira confusa: mas depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é limitado, mas depois conhecerei como sou conhecido”. O certo é esperar e nos contentarmos com a goiabada enquanto não chega o pudim, aquele de leite condensado, sutil como um pensamento.
Da outra vida sabemos, com certeza, que ela existe, tanto pela razão quanto pela tradição ou revelação. Detalhes do além, contudo, escapam à nossa percepção, em que pese todo nosso esforço par atingi-los.
Segredos há em nossa alma que somente a Deus é dado conhecer. Resta-nos valorizar a verdade que conseguimos conquistar e oferecermos a Deus o obséquio de nossa fé através da qual, conhecemos tudo com o aval de sua divina palavra. Anda no escuro quem quer porque o farol da palavra de Deus brilha sobre nossas cabeças e ilumina o caminho que devemos trilhar. Nem tudo o que brilha é ouro, mas o que é palavra de Deus, certamente, é verdade, isto é.
José Cândido de Castro
FEVEREIRO 2005