Com certeza, estou me propondo uma árdua tarefa quando me arrisco escrever sobre o tema Anticristo. A matéria é complicada e se apresenta, por um lado, misteriosa, mas por outro, muito clara. A própria etimologia da palavra Anticristo o define. É aquele que se posiciona contra Cristo. O mistério começa quando se trata de identificar quem é quem. Será uma pessoa, um grupo, uma ideologia, uma religião ou uma nação? Outra questão diz respeito ao tempo de seu aparecimento. Já chegou ou ainda está por vir? Vamos recorrer ao mais conceituado oráculo sobre esta matéria, São João Evangelista, que, tanto em suas cartas, como no Apocalipse, se expressa, com muita clareza. Em sua primeira carta (2.22) escreve: “Anticristo é quem nega que Jesus é o Messias. Este tal é o Anticristo, aquele que nega o Pai e o Filho”. Neste sentido, todo aquele que negar o cristianismo, poderá ser o Anticristo. É sabido que, pelo menos duas religiões, a israelita e a muçulmana, negam declaradamente que Cristo seja o Messias. Por outro lado, São João fala do espírito do anticristo que se espalha pelo mundo. Dá a entender assim, que se trata de uma mentalidade anticristã, no estilo desta que vem sendo expressa nas mensagens de Osama Bin Laden. Ele fala de uma guerra dos povos muçulmanos contra o cristianismo. Se não é o anticristo, tem tudo para sê-lo. Ele se define como anticristão e afirma que está disposto a matar para o provar. Os recentes acontecimentos do World Trade Center e do Antraz, não são ameaças, mas fatos consumados.
Voltemos a São João em 4,3. “Todo aquele que não reconhece a Jesus, não fala da parte de Deus. Este tal é o espírito do Anticristo; vocês ouviram dizer que ele vinha, mas ele já está no mundo”. Não se trata mais de uma expectativa, mas da certeza da presença do anticristo no mundo. Na sua segunda carta, v.7, o Apóstolo reforça este pensamento afirmando: “Porque muitos sedutores que não reconhecem Jesus como Messias encarnado, espalham-se pelo mundo. Eles são o Sedutor, o anticristo.” Para selar sua profecia sobre o anticristo, o Evangelista se expressa da seguinte maneira: “Filhinhos, já chegou a última hora. Vocês não ouviram dizer que o Anticristo devia chegar? Pois vejam quantos anticristos já vieram! Daí conhecemos que a última hora já chegou. Esses anticristo saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecidos conosco. Mas era preciso ficar claro que nem todos eram dos nossos”.
Algumas de nossas dúvidas apontadas no começo já se esclareceram, ou seja, Anticristo é o que está contra Cristo e sua presença entre nós é um fato. A encarnação de sua figura vai ganhando contornos cada vez mais definidos.
O apocalipse (13,1) identifica o anticristo como uma besta de dez chifres. Esta, por sua vez, foi sucedida por outra de dois chifres. Eram identificadas pelo número seiscentos e sessenta e seis. Não resta dúvida que se trata de uma figura ou metáfora. São João mesmo diz que: “é preciso entender: quem é esperto, calcule o número da Besta; é um número de homem: o número é seiscentos e sessenta e seis”. Este número pode significar o máximo de imperfeição, pois não atinge o sete e é a metade de doze. Indicaria assim, a relatividade e a fraqueza dos poderes totalitários. O Evangelista identifica a primeira Besta como o Imperador romano da época. O número seiscentos e sessenta e seis, conforme o valor numérico das letras em hebraico, corresponde ao nome de César Nero. O imperador Domiciano é visto como a ressurreição de Nero e da sua crueldade.
Que o Anticristo seja ou não uma figura humana definida não parece ter muita importância. O que importa, sim, é que ele é uma oposição, uma rejeição a Cristo que, segundo São João, está atuando no mundo como, aliás sempre atuou. Ora é o imperador Nero, ora Hitler, ora a ideologia comunista e, na atualidade, Bin Laden com o seu terrorismo. Podemos definir o Anticristo como um espírito, uma mentalidade anticristã que sempre existiu, a começar pelo rei Herodes que decretou a morte do recém-nascido Menino Jesus. Os dez chifres da Besta representariam, cada um, uma seta atirada contra algum dos dez mandamentos, síntese do cristianismo e essência da vontade de Deus sobre os homens. Cada vez que me insurjo contra algum desses mandamentos realizo o anticristo e me bandeio para suas hostes.
Termino com um episódio da vida de Santo Agostinho. Muito envolvido com os mistérios de Deus, o Santo caminhava pela praia quando encontrou um menino que retirava água do mar e colocava dentro de um pequeno buraco. Que fazes, perguntou-lhe o Santo? Ao que o menino respondeu: - Estou pretendendo transportar a água do mar para este buraco. Não vês que é impossível, retrucou o Santo. Sim, alega o menino, assim como é impossível que o mistério de Deus caiba em sua cabeça. Desapareceu em seguida. Era um anjo. O mistério existe para não ser entendido é um dos grandes mistérios que não consigo entender é porque o homem tem tanta aversão a Deus de quem depende até para respirar. Morrerei não entendendo...
José Cândido de Castro
NOVEMBRO de 2001