Para entender bem esta matéria de que nos vamos ocupar no espaço que se abre à nossa reflexão é necessário absolutamente esforço concentrado afim de que cheguemos, afinal, a nos situarmos no cerne do sentido de nossa existência.
Uma boa definição é aquela que revela a essência da coisa definida. Como foco da questão em apreço, está na alça de nossa mira a LIBERDADE a qual definimos como a faculdade que tem todo o ser racional de determinar seus próprios atos no âmbito de suas limitações. Trata-se de um poder inerente à nossa natureza e, como tal, um dos elementos constitutivos de sua essência. Sem liberdade não se pode cogitar de ser humano porque, assim o quis e determinou o Criador de todas as coisas. Como, porém, somos seres criados, esta faculdade, este poder é necessariamente limitado quanto ao seu objeto e está sujeito a certas normas e se exerce dentro de determinados limites estabelecidos pela natureza. Liberdade absoluta só a de Deus. A liberdade humana é limitada. Nem por isto, contudo, deixa de ser a peça principal de nosso relacionamento com o Criador que nos criou assim como tudo o que há de bom para nós. A posse, contudo, destes bens está condicionada à nossa livre escolha e aceitação, ou seja, ao nosso merecimento. Temos que merecer o que nos é oferecido por Deus e o sinal de que o merecemos ou não, está na livre escolha do objeto que nos é proposto. Isto é liberdade: saber escolher corretamente. Escolher mal não é um ato livre, mas escravo, imposto pelo inimigo do bem.
É importante levar-se em conta o que acontece quando exercemos nossa liberdade. Forma-se quase que um axioma: “Bona vídeo, deteriora sequor”. Vejo o bem, mas, prefiro o mal. Esta é a questão. Preferir o mal é uma coisa, mas, escolhe-lo é outra. Escolher significa um ato positivo da vontade que, num confronto entre o bem e o mal, escolhe o mal como sendo superior ao bem na escala dos valores. É por este ato deliberado que o homem se condena porque rejeita Deus, expressão máxima do bem, e abraça o demônio, inimigo declarado de Deus e do próprio homem. São João (3.18) afirma taxativamente: “Quem não crê já está condenado”. A apostasia, a incredulidade e o ateísmo constituem o maior pecado praticado por nosso livre arbítrio. Já o preferir representa mais uma questão prática, momentânea, uma conivência com a fraqueza da carne e não uma rejeição formal do bem. Outra circunstância em que praticamos o mal sem recusarmos o bem é a inadvertência ou ignorância. Dá-se quando não caímos na conta de que o objeto de nosso ato é o mal.
Dissemos acima que a liberdade é limitada. Isto significa que ela só é praticável na esfera do bem já que abraçar o mal é condenar-se. De maneira geral, a disciplinação do livre arbítrio se faz pela lei. Por isto afirmamos que livre é o indivíduo que pode fazer tudo o que não é proibido pela lei. A lei é aquela seta que nos proíbe virar à esquerda como na sinalização de trânsito. É por isto que definimos a lei, num sentido estrito, como norma que regula e estabelece limites ao exercício da liberdade.
Mas, nem tudo o que é lei é restrição ao livre arbítrio porque nem tudo é objeto de nossa escolha. A lei da gravidade, por exemplo, não se sujeita ao querermos ou não que um objeto seja atraído para o centro da terra. São as chamadas leis constativas que registram apenas como as coisas são. São leis indutivas que se formam pela observação da regularidade entre fenômenos e tem um valor heurístico. São as leis de todas as ciências e da natureza. Já a lei normativa é a que prescreve como as coisas devem ser. Assumem vários sentidos que faz mister considerar. É a norma ideal à qual um ser se deve conformar para realizar a própria plenitude. Todos nós intuímos, mais ou menos claramente, um tipo ideal de homem perfeito que encarna em si, num grau esplêndido, todas as virtudes, sem jaças de defeitos. Este tipo ideal, esta norma de virtude e de grandeza humana, imanente ao homem e revelada a ele pela consciência, é a própria lei natural. Conformar-se a esta lei, aproximar-se da realização deste tipo ideal, através de cada uma de nossas ações, é agir moralmente bem, desviar-se dele é agir moralmente mal. Em complementação a esta lei interna consolida-se o sistema de regras externas ao homem que a ele se interpõem, regulando sua atividade. Algumas destas regras se impõem sem declaração expressa, pelo simples uso, pela tradição, ou por um processo imitativo. Outras se impõem como manifestação da vontade divina através da Revelação. Neste sentido falamos na lei antiga e na nova lei.
No sentido moral, jurídico ou ainda positivo a lei se define como uma ordenação racional promulgada para o bem comum, pela legítima autoridade. A lei normativa se divide em dois grandes ramos, a eclesiástica e a civil, enquanto regula o comportamento religioso e moral da Igreja ou dirige os atos externos, o comportamento social dos membros de uma sociedade, o Estado, cujo poder imperativo se radica, em última análise, na própria natureza social do homem. É assim que a lei divina, a lei natural e a positiva, como expressões da verdade, obrigam e estabelecem limites ao exercício da liberdade. Tudo o que contraria estas leis é proibido, é pecado e condena quem, deliberadamente, as viola. O homem tem a mania de culpar a Deus pelos males da vida, pelas doenças e diferenças sociais, esquecendo-se de que Deus criou o homem perfeito, bem dotado e inteiramente livre de todo o mal. O responsável, único responsável, pelos sofrimentos que se abatem sobre nós foi o primeiro homem pelo mau uso que fez de sua liberdade. Entre o Bem Sumo que nos recompensa com a eterna felicidade ele optou pelo mal repelente que nos submete à pior das escravidões.
Deus torce por nós, põe à nossa disposição toda sorte de ajuda e apoio, é tolerante, misericordioso, desceu do céu e morreu pregado numa cruz só para nos salvar. O que mais queremos?
No entanto, entre o Bem e o mal, entre esta e a outra vida, continuamos preferindo a presente que se nos apresenta mais atraente, mais concreta para nosso imediatismo.
Você, ao invés de culpar a Deus, culpe Adão e sua companheira, culpe o Sr. Bush e Cia. Pelo efeito estufa que promovem e pelo fogo que ateiam na terra, culpe a China, a Índia, o Paquistão e outros que promovem explosões atômicas no fundo dos oceanos provocando maremotos e deslocamento do eixo da terra, culpe a pouca vergonha do sexo responsável pela propagação da AIDS e das doenças venéreas, as mais nojentas, culpe o terrorismo diabólico que sacrifica milhares de vidas inocentes, culpe Osama Bin Laden, culpe os ladrões que se apoderam dos dinheiros públicos, culpe o diabo que enche nossos ouvidos com toda espécie de maus conselhos e sugestões, culpe, enfim, o mau uso de sua liberdade aliando-se ao demônio em sua luta contra o Bem Supremo, contra seu próprio bem. Louve e agradeça a Deus por tanta bondade e misericórdia usadas para conosco, ingratas criaturas.
BÊNCÃO E MALDIÇÃO, EIS A PROPOSTA DE DEUS.
A bênção está na obediência aos mandamentos do Senhor Deus e a maldição na desobediência aos mesmos. A escolha é minha, somente minha.
José Cândido de Castro
Maio de 2005
Direitos de Reprodução Reservados
Esta publicação não poderá ser reproduzida ou transmitida
por qualquer modo ou meio, no todo ou em parte,
sem autorização prévia e escrita do autor.