ATRAVÉS DA VIDRAÇA

De manhã, bem cedo,
quando o barulho pela luta da vida
ainda não se fazia ouvir, 
invadiu o espaço de meu pequeno escritório 
uma borboleta azul, 
apressada, ofegante, 
trazendo, aderida às antenas 
a preciosa carga do pólen amarelo 
que acabara de sugar das plantas floridas 
do jardim interno. 
Sem perda de tempo,
projetou-se contra a vidraça transparente. 
Com toda a energia de suas delgadas patinhas,
sonda a resistência daquele invisível obstáculo 
que se opõe à sua trajetória. 
Insiste, debate-se. 
Para um instante para refletir. 
Não entende. 
Do outro lado abre-se a realidade que a fascina,
o espaço livre de que precisa para voar,
para buscar a vida. 
Recobra o ânimo.
Como o atleta que sonha com a glória,
toma distância e se atira contra o obstáculo de seus anseios. 
Envolve-se no verdadeiro círculo vicioso
de repetir e tentar o impossível. 
E assim, neste combate sem horizontes,
consomem-se, inexoravelmente, os minutos 
até que, vítima de uma luta irracional, 
a linda borboleta azul 
cai ao solo, exangue, agonizante, 
numa capotagem à qual não conseguirá sobreviver. 
Seu velório durou pouco.
Eis que um bando de formigas se aproxima. 
Colocam sobre seus ombros
o que restou de tão heróica 
quanto efêmera batalha. 
Levaram-na para dentro do formigueiro,
sobre aquele esquife de esperança 
que agora ia transformar-se em vida 
para a república das sábias e laboriosas formigas.
Silêncio, pezar, perplexidade...
Colo minha face na página do livro
que se abria nas asas daquele inseto 
para oferecer-me matéria de reflexão....
Era o livro da natureza.
Obrigado, minha linda borboleta azul,
tão azul como o céu, 
pela lição que me deste.
Como você, alimento a idéia fixa
de armazenar o pólen das boas obras 
para material de construção de uma vida definitiva.
Vislumbro esta vida
através da vidraça de meu corpo 
que me permite antever mas me impede transpor. 
Minha luta é para romper o casulo
que você não conseguiu transpor 
porque por sua cabecinha azul 
não transitou a idéia 
de que a solução não era enfrentar o obstáculo 
mas percorrer de volta o caminho 
que a colocou, frente a frente, 
com o impossível. 
A vidraça de meu corpo tem que ser rompida,
abrindo caminho para a vida plena, 
mas não por mim e sim por QUEM 
tem o relógio que mede a eternidade.
Aqui, no tempo, vejo tudo como em espelho,
na fé, na esperança e no amor.
Depois que a vidraça for quebrada,
verei tudo, face a face 
e me conhecerei como sou conhecido, 
como um ser criado para viver 
a plenitude da vida em regime de eternidade. 
Meu corpo é companheiro
no tempo, na esperança, na semeadura.
Um dia, em meio a seus estilhaços,
seremos uma faísca de vida.
Quando criança pensava e agia como você.
Era um quixotesco lutador,
um suposto quebrador de vidraças. 
Agora que me tornei adulto pela fé,
vejo através do cristal 
que não deforma a imagem 
D'AQUELE que me fez à sua semelhança. 
Esta imagem está gravada
no negativo de meu corpo.
Decorrido o tempo, ela se revelará
numa linda e colorida imagem 
por obra do Grande Fotógrafo 
e não pelo que restou do espelho feito em pedaços. 
Obrigado, minha linda borboleta,
sonho azul de pureza, 
pela lição que, como autêntica representante da natureza 
você me passou.
Aprendi tanto com você
que agora lhe proponho: não tente mais romper vidraças 
mas venha pousar em meu ombro 
para, juntos, 
aprendermos que a luz que nos ofusca 
além da vidraça 
não se alcança aqui 
mas lá, face a face 
com o ORIGINAL da imagem que somos.

José Cândido de Castro

NOVEMBRO de 2002

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Prof. José Cândido de  Castro
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