Tenho ouvido dizer que carnaval, escolas de samba, candomblés, maracatus, capoeiras e similares são expressões máximas de cultura. Pelo menos, é esta a justificativa apresentada para coonestar e justificar a liberação de verbas e subvenções destinadas a financiar tais atividades culturais. Ora, o Brasil, sem sombra de dúvidas, é o maior representante mundial dessas expressões culturais. Logo é o país mais culto do mundo. Neste sentido, Suíça, Suécia, França, Japão e tantos outros países perdem grande para o Brasil.
Meu receio, contudo, é que estes eventuais concorrentes acabem por nos arrebatar tão honroso e glorioso título. A televisão tem mostrado grupos, cada vez mais volumosos, de estrangeiros ensebando as canelas e lubrificando as juntas e articulações para caírem na folia. Vai se repetir o que aconteceu com o futebol. Durante décadas o Brasil foi rei absoluto na arte e na cultura da chuteira. Bastou, contudo, que outros países descobrissem o caminho da bola para que perdêssemos tão importante hegemonia. Há anos que não conseguimos por a mão num caneco.
O que nós não podermos mesmo para ninguém é o campeonato do analfabetismo, da miséria (trinta e dois milhões de famintos), da malandragem, da violência, do tráfico de drogas, da corrupção, da doença, do favelamento, do desperdício, da incompetência administrativa e da pouca vergonha de nossos políticos, tudo isto expressão do mais alarmante subdesenvolvimento cultural.
No que diz respeito à cultura propriamente dita, o homem brasileiro está cada vez mais inculto e mais pobre no desenvolvimento de suas capacidades intelectuais. Nem a própria língua o brasileiro consegue aprender e falar corretamente. Nós dizemos que uma pessoa é dona de vasta cultura quando ela conseguiu estender seus conhecimentos além dos compartimentos de uma especialização, como também, pelo vigor de suas faculdades mentais, é capaz de elaborar as grandes associações criadoras e formular as visões antecipadoras que abrem novas dimensões para o pensamento humano. A sede da cultura está na cabeça, e não nas pernas, nos quadris e nos requebros facilmente praticáveis por qualquer ser humano, por mais inculto que seja. É preciso não confundir cultura com esporte, com lazer e até mesmo com arte.
A cultura não é um dom gratuito, mas o resultado de um esforço diuturno que exige disciplina intelectual e que, não iniciado no período da vida universitária, dificilmente irá além de uma pseudocultura livresca, em geral, associada a uma extrema fatuidade intelectual. No sentido objetivo, o termo cultura se refere a todo o conjunto de criações pelas quais o espírito humano marcou sua presença na história. Este imenso acervo compreende desde os machados de sílex e as grafitas das cavernas pré-históricas, até os computadores eletrônicos e os foguetes espaciais. Um dos fenômenos mais característicos de nossa época parece ser a planetização da cultura, ou a extensão da cultura tecnológica a todos os quadrantes do planeta. Temos que democratizar a cultura e elevar o povo a um nível de desenvolvimento no qual lhe seja possível participar cada vez mais dos valores da cultura moderna. Da cultura individual nasce a coletiva. É impossível ter-se um país culto se seus habitantes são ignorantes e pobres de mentalidade. É como se, por falta de ouro, pretendêssemos guindar o carvão à categoria de metal nobre para fabricar jóias. É nas salas de aula que se forja o homem culto, e não nas escolas de samba, nos terreiros e nas folias. É da soma de cidadãos cultos que nasce a cultura nacional capaz de nos colocar no nível daqueles países que, na sua condição de carros-chefes da cultura, arrastam os vagões do Terceiro Mundo repletos de ignorância, de pobreza e subdesenvolvimento intelectual. É preciso deixar de mascarar a cultura, de fingir que somos um país culto só porque dançamos no carnaval ou somos os mais relaxados em nosso comportamento. É preciso ir à escola e encontrar lá educadores e professores à altura de sua reputação de mestres do saber e paladinos da cultura.
José Cândido de Castro
FEVEREIRO/94