Causa é um conceito fundamental que não se define, mas se descreve. Assim, causa é aquilo que responde pela existência de um ou mais efeitos. Quando afirmamos que não há efeito sem causa, admitimos que a supressão do efeito não implica na eliminação da causa. Já o contrário é verdadeiro. Com a remoção da causa, necessariamente, elimina-se o efeito. “Sublata causa, tollitur effectum”, para valer-nos da clássica expressão latina.
Pois bem, a nossa sociedade vive sob o impacto de efeitos. Nem sempre, contudo, atinamos com as verdadeiras causas desses efeitos, o que vem a dificultar sua remoção. Numa tentativa de concorrer para o esclarecimento deste assunto, passaremos em revista alguns dos principais efeitos com os quais estamos acostumados a conviver.
Efeito pirotécnico ou queima de fogos . É o efeito do barulho, do muito trovão e pouca chuva, do momentâneo. Depois da queima dos fogos nada mais resta que o estrondo, a fumaça, o cheiro de pólvora, os cartuchos chamuscados ou estilhaçados e um rombo no bolso de quem financiou o espetáculo. Socialmente entendido, este é o efeito produzido pelos grandes eventos nacionais e internacionais. Reúnem-se milhares de pessoas, mobilizam-se exércitos para a segurança, pronunciam-se centenas de discursos, empilham-se montanhas de papel, gastam-se fortunas, no final, todos voltam para suas casas e as coisas continuam do mesmo jeito. Você está lembrado, por exemplo, daquela ECO que se reuniu no Rio de Janeiro? O que resultou de tudo aquilo? Nada, além do barulho das moto-serras derrubando nossas florestas, da fumaça dos incêndios que devoram nossa vegetação, dos esqueletos retorcidos de nossas árvores chamuscadas pelas chamas e do cheiro de pólvora espalhado pela violência das grandes e pequenas cidades. Tudo continua na mesma com tendência a piorar cada vez mais. E a causa, qual seria? O governo, por falta de competência e de soluções convincentes, precisa manter a consciência do povo anestesiada na tentativa de evitar uma reação em cadeia. Daí a astúcia de provocar efeitos alucinógenos.
Efeito Cigarra . Canta, canta, minha gente. A vida vai melhorar. É o pregão estridente da Cigarra da Vila. Parece que seu convite encontrou eco nas multidões. Nunca se cantou tanto nesta terra. A indústria dos CDs vai enriquecendo muita gente. As massas populares pulam, dançam, se esgoelam, suam a camisa, mas, quando voltam para casa continuam comendo angu com feijão, se é que os há para comer. Não está sobrando tempo pra trabalhar. Este efeito pode ser também qualificado de alienação. Quem tem medo, assobia e grita para criar a impressão de que não está sozinho. O desespero faz pular e cantar e a fome provoca alienação. A causa não é outra senão esta política econômico-financeira deste governo que retém nas mãos de cinco por cento da população todos os recursos da nação e tange na pobreza e na miséria os outros noventa e cinco.
Efeito Ilusão . Há muita gente que gosta de viver da ilusão. Repetem o gesto da avestruz que, quando se sente ameaçada, esconde a cabeça na relva. Finge que não percebe a presença do lobo que vem a seu encalço a cem por hora. Nem por isto ele deixa de vir. É inconcebível que face à violência galopante que atropela o país, a maioria da população não acredite que poderá chegar a sua vez de pagar tributo à sua insensatez. Comigo não irá acontecer. Eu tenho o corpo fechado. Acredito que pelo menos a cabeça fechada você tenha, a ponto de não entender o óbvio. É a atitude daquele que serra o galho em que se acha assentado. Ao primeiro estalo, no entanto, rompe-se a ilusão de segurança e com ela, a vida. Esta atitude é bem característica daqueles que enxergam no dinheiro a solução para tudo. Para algo sim, ele serve, para garantir a compra de um mausoléu de primeiríssima qualidade, com lousa de mármore de Carrara para ocultar o festival dos vermes da decomposição. Qual seria o agente causador de tão desastrado efeito? Com certeza, a degradação da família e da falência da escola que não mais gestam e educam o ser racional. Enquanto isto continuo lutando para obter um patrocínio que garanta a impressão de uma cartilha planejada para promover a restauração da família. Só com a prisão do Lalau o governo consumiu mais de um milhão de reais. É o efeito anestesia que continua sendo aplicado na consciência do povo.
Efeito Narciso . Personagem da mitologia grega, Narciso era célebre por sua beleza física. Apaixonou-se por sua própria imagem espelhada nas águas de uma fonte, no fundo da qual se precipitou para abraçar-se com ela. Morreu afogado. Este efeito ataca principalmente as mulheres que decidiram emancipar-se de todos os seus compromissos com sua natureza de esposas, mães e de centros de gravidade da família para dedicarem-se ao culto doentio do próprio corpo. Consomem seu tempo diante de espelhos e de câmeras de televisão deslumbradas com os silicones implantados nos sulcos cavados pelos anos, cruéis cemitérios de ilusões perdidas. A causa é, em parte, a natural vaidade feminina levada ao extremo. Por outro lado, deve-se à exploração do consumismo e a falta de escrúpulos dos meios de comunicação que lançam mão de todos os recursos para exasperar a volúpia em todas as suas modalidades. Narciso encontrou romanticamente no fundo de uma fonte o fim de tudo. Qual será o lago em que as Narcisas de hoje vão afogar suas lindas imagens? É bom refletir porque os anos correm fugazmente, sem retorno.
Efeito Libertação . Talvez seja esta uma das palavras mais repetidas e também mais equivocadas que passam de boca em boca. Freqüentemente, libertação é confundida com libertinagem caracterizada pelo desprezo a normas inerentes à natureza do homem e das coisas. É uma falsa libertação porque, longe de conduzir à liberdade verdadeira, submete a novas servidões. Quem pretende libertar-se das obrigações impostas pela lei e pelo dever se torna escravo de um sem número de vícios e até de crimes. Este efeito ganhou tanta ênfase que chegaram a criar até uma teologia da libertação, plagiando a verdadeira libertação conquistada por Jesus Cristo. Esta libertação se dá na linha vertical, de Cristo para o homem que é libertado espiritualmente do pecado. Já esta outra libertação se processa na linha horizontal. É o homem que liberta o homem, materialmente, de situações econômicas, mediante a violência e a luta de classes. Tem como causa a exacerbação das preocupações com a vida material em detrimento dos valores superiores que norteiam os destinos do homem criado à imagem e semelhança de Deus. “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça. O mais virá por acréscimo”. Mt. 6,33. Com certeza, o homem nunca esteve tão escravizado como agora, como também nunca tão longe de Deus. Sua vida está dominada pela escravidão econômica, das drogas, da violência, da pobreza, dos vícios e dos crimes.
Efeito Estufa , que consiste no aquecimento progressivo e constante do planeta terra provocado pela destruição da camada de ozônio que protege a atmosfera dos raios ultravioleta. Esta destruição é promovida pelo lançamento, na atmosfera, de gazes poluentes e pela agressão do meio ambiente. Quem seria responsável por este desastre senão o homem? Este fenômeno está diretamente ligado à escatologia e à parusia, características da terceira e última etapa da vida do homem sobre a terra. A continuar neste ritmo, tudo indica que não estamos muito longe do fim. Com mais dez graus a temperatura subirá para sessenta graus, o mais do que suficiente para inviabilizar a vida sobre nosso planeta. Se não forem adotadas medidas drásticas para coibir o avanço deste aquecimento, daqui a vinte anos, seremos todos objeto de um gigantesco churrasco. Será então cumprida a profecia do Evangelho que prevê para a terra um fim movido a fogo. Você que gosta de brincar com fogo, continue atirando lenha na fogueira, naquela que realizará a grande e apocalíptica pira de cadáveres.
José Cândido de Castro