O GRANDE CHURRASCO

É tradição, fundada na Bíblia, que a terra acabará sendo devorada pelo fogo. Esta crença não nos parece de todo sem fundamento se levarmos em conta a marcha dos acontecimentos. O que parece certo é que não será Deus quem vai atear fogo em nosso planeta. Perfeitamente coerente, Deus respeita o modelo de criação que escolheu para o homem, ou seja, um ser livre. Liberdade, esta é a palavra chave que, se mal entendida e mal usada, pode complicar tudo como, de fato, complica. Deus entregou a terra ao homem para que a governasse e administrasse. Estabeleceu, contudo, as leis para esta administração, porque uma coisa é administrar e outra legislar. O homem não recebeu de Deus poderes para impor leis à natureza nem, muito menos, para mudar ou desrespeitar as leis divinas. A liberdade ou livre arbítrio é a faculdade que tem o ser humano de escolher entre os diversos bens que se apresentam à sua escolha. O mal, por sua natureza, não é objeto de escolha mas de rejeição. Entre o bem e o mal, escolher o mal não é usar mas abusar da liberdade, é agredir a natureza. Este mau uso da liberdade é a origem de todos os males do mundo. Um destes males consiste exatamente na destruição da terra que vai sendo, pouco a pouco, promovida pelo homem. O chamado efeito estufa diz respeito ao progressivo aquecimento da terra até chegar a atingir temperaturas insuportáveis. Neste ano, no sul da Europa, os termômetros registraram cinqüenta graus centígrafos, provocando a morte de um significativo número de pessoas. Neste rítimo, dentro de dez anos, estaremos atingindo os sessenta graus, temperatura mais do que suficiente para garantir um universal churrasco onde todos morreremos assados, cumprindo-se a profecia de que tudo terminará em fogo. Os cientistas e os estudiosos desta questão advertem constantemente que, em menos tempo do que se pensa, virá faltar água em nosso planeta. Não será necessário ir muito longe para constatar o fato. Basta fazer uma visitinha às cabeceiras de nossos córregos que já não mais existem e alongar nosso olhar para o leito de nossos rios, cada vez mais estreitos e engolidos pela erosão provocada pelo desmatamento de suas ribanceiras. Tudo se faz para agredir a natureza, nada, ou quase nada para protege-la. A terra está tomada pela desolação porque não há quem medite sobre as conseqüências dos desmandos praticados por um homem cada vez mais distante do centro de gravidade de sua existência e mais próximo da ejeção que o colocará fora da órbita de sustentação de sua vida e à deriva num espaço sem rumo. Cavar a própria sepultura ou travar a grelha destinada à assadura de suas carnes seria o pior destino daquele que foi criado para ser a imagem de Deus e o herdeiro do mais fabuloso patrimônio de riquezas englobado no paraíso da criação. O momento é de preocupação, de reflexão e, mais do que tudo, de ação. De nada adiantaria este vertiginoso progresso de que tanto se orgulha a humanidade se ele se convertesse em autofagia da própria espécie humana que o alimenta.

Uma nova Torre de Babel está enfeitiçando os pruridos de progresso do homem. A engenharia genética promoverá a mistura dos genes e produzirá seres com corpo de homem, chifres de boi e rabo de cavalo, no estilo da mitologia grega. O provérbio adverte que o sapateiro não deve pretender ir além da sandália porque correrá o risco de produzir uma roda de carroça. Contente-se o homem com ser homem e não pretenda colocar o pé onde a mão não alcança. Adão se deu mal brincando de ser Deus. A lição está aí. O pior é que somos maus alunos e não acabamos de aprender o que até o João de Barro sabe. Com efeito, ele constrói sua linda casinha mas nunca teve a idéia de erguer um arranha-céu. Se seguirmos a natureza, nunca erraremos.

José Cândido de Castro

AGOSTO/2000


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Prof. José Cândido de  Castro
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