Todos conhecemos a famosa fábula da cigarra e da formiga onde ambas aparecem em posições opostas. Uma, a cigarra, exaure a própria vida cantando, a ponto de explodir. Nossas árvores estão cobertas de carcaças do inseto cantador. A outra, a formiga, garante sua subsistência planejando e trabalhando para não ser surpreendida pelas intempéries. É por isso que merece destaque no livro dos Provérbios (6,6) “Vá, preguiçoso até à formiga, e observe seus caminhos e aprende a sabedoria”. Materializando a fábula, constatamos que, no Brasil, há cigarras demais e formigas de menos. O que há de gente cantando e dançando por ai não se pode avaliar. Os conjuntos musicais devem ter crescido uns quinhentos por cento e a indústria dos CDs é a que mais prosperou nos últimos tempos. Nem à noite, quando você se refugia debaixo dos lençóis, consegue escapar do som que satura o espaço aéreo nacional. Enquanto isto, muita gente morre de fome e inanição. Além do mais, o formicida da preguiça, da vadiagem e da malandragem ameaça os formigueiros de quem ainda trabalha e o ópio da alienação sonora entorpece as multidões. A sabedoria inculcada na figura da formiga consiste no trabalho e na prudência que preserva e respeita a natureza.
A moderna tecnologia criou facilidade para tudo, menos para o trabalho. Sem trabalho não se ganha, nem, muito menos, se vive. De nada serve manter as prateleiras dos supermercados e do comércio, em geral, superlotadas de mercadorias e de gêneros alimentícios se o bolso do povo está vazio. O instinto consumista e a provocação lançada pela propaganda geram no povo a insatisfação, a revolta e a determinação de usar de meios ilícitos para satisfazer seus desejos. Por outras palavras, a concentração de riquezas nas mãos de uma minoria choca-se com a pobreza da imensa maioria. O estopim da revolta está aceso e no final dele se esconde o artefato explosivo que fatalmente desenhará no espaço o cogumelo de uma explosão.
Perante este quadro de realidades negativas, qual a posição do governo? É sempre a mesma, estrangular a economia do povo com a cobrança de impostos cada vez mais sufocantes e autorizar o aumento de vida sempre em benefício próprio e dos ricos. Um tanque onde se retira e não se repõe está fadado a secar. É o que acontece com os salários e aposentadorias de noventa e cinco por cento da população brasileira. Como se não bastasse, os grandes e impunes ladrões da categoria dos Lalaus, dos Bitancourt, dos Cacciolas sugam os recursos destinados à melhoria de vida da pobreza. Dentro do organismo social do Brasil está instalada a mais vergonhosa e cruel estrutura de injustiça de que se tem noticia em todos os quadrantes do planeta terra.
Nossos governantes continuam tranqüilos. Vão e vem em intermináveis e caras viagens internacionais e nacionais, confabulam dentro e fora do país, arranjam desculpas e explicações para tudo sempre dentro daquela tônica de tirar dos que não tem para dar aos que nem sabem mais o que fazer com tanto dinheiro. A consciência desses homens está calejada, seu coração virou cascalho e seus olhos estão cobertos pela catarata da maldade ou da hipocrisia no velho estilo da avestruz, que esconde a cabeça na relva para não enxergar o perigo que a ronda. Até quando a iniqüidade dessa minoria triunfará sobre a imensa maioria de nosso povo? Até breve porque segundo a visão do poeta latino Horácio – “Há uma medida para tudo, há limites além dos quais não se pode avançar”. E o limite da injustiça é a sepultura do injusto.
José Cândido de Castro
OUTUBRO/2000