A CORRUPÇÃO DO ÓTIMO

Uma expressão latina nos adverte: “Corruptio optimi pessima”. A corrupção do ótimo é péssima. Corrupção, por sua vez, significa depravação, suborno, desmoralização. É a progressiva desintegração de um ser até sua total destruição. O mundo e, conseqüentemente, o Brasil, passa por um processo de corrupção que vem se acentuando, lentamente, mas, com constância e avanços cada vez maiores. É como um câncer que, de início, se instala numa célula, depois contamina um grupo maior, em seguida, apodera-se de todo um órgão e, mais adiante, por um processo de metástase, invade e aniquila o organismo todo.

A corrupção moral é uma progressiva degradação dos costumes, pela qual um indivíduo, incapaz de impor princípios à sua vida, acaba por considerar a própria vida norma válida para os outros. É o que observa, com muita propriedade, Montaigne: “Parce que nous ne vivons pas nos maximes, nous maximons notre vie”. Nós não vivemos nossos máximos, nós impomos nossa vida como máxima para os outros. Ninguém nasce ladrão, ninguém se inicia no mal cometendo logo um crime espetacular. Antes de chegar aí, houve uma lenta preparação interior, uma insensibilidade crescente pelos direitos alheios, uma sedução cada vez maior e consentida pelas vantagens presumidas do crime, até que condições favoráveis induzem ao gosto criminoso. A profilaxia é a ciência e a técnica para prevenir os contágios. Esta profilaxia chama-se educação, formação dos indivíduos. Acontece, porém que a educação não existe mais, nem na família, nem na escola, nem na sociedade. O germe da degradação cresce e age livremente, sem nenhum combate que enfraqueça sua ação demolidora. Esta corrupção do individuo prolifera e contagia o organismo social e a administração pública que se converte no aproveitamento sistemático do cargo público para a satisfação de interesses pessoais comumente de natureza pecuniária ou a tentativa de subornar a autoridade, com o mesmo objetivo. É uma tremenda arma que todos os movimentos subversivos sabem manipular com habilidade. Uma administração corrupta, não preenchendo sua missão essencial de serviço ao público, cria neste um sentimento generalizado de insatisfação, facilmente mobilizável por uma manobra revolucionária. Deus fez tudo com perfeição, ou por outras, criou o ótimo. A cargo do homem fica a tarefa de corromper. E como corrompe!

Na obra da criação, o que pode haver de mais belo do que uma criança? No entanto, esta maravilha não só não é preservada e conservada, mas contaminada pelo vírus da rebeldia contra tudo o que é sadio e construtivo. A juventude, hoje, é o resultado mais deplorável deste processo de corrupção do ótimo. O organismo social sofre os efeitos da metástase deste câncer que se instala nos seus pontos mais vulneráveis, para, em seguida, contaminar o todo. É péssimo o que se constata em nossos presídios, nas unidades da FEBEM, nos bailes Funks, nos programas de televisão onde a mulher desfila como vaca nas feiras de exposição de gado, nas transas onde o dinheiro público é roubado, nos cortiços habitacionais onde literalmente se morre de fome e o ser humano é tangido de um lugar para o outro como manada de irracionais, nas praças e nas ruas onde se mata, se seqüestra, se rouba, se estupra. Tudo isto porque o ótimo criado por Deus é simplesmente tido como imposição à soberana liberdade do homem que, desde o início, resolveu apostar na rebeldia contra Aquele que condicionou a verdadeira e duradoura felicidade à observância da lei preservadora contra os desmandos.

A situação é particularmente péssima porque não se vislumbra uma saída, não surge uma liderança bastante poderosa para reverter este quadro. O sal é conhecido como agente de preservação contra a corrupção. É por isto que, quando Cristo enviou seus discípulos com a missão de pregar o evangelho, os qualificou de sal da terra. Mas este sal, com o decorrer dos tempos foi perdendo sua força preservadora, tanto quantitativamente como qualitativamente. Os pregadores da palavra, os agentes da evangelização foram atraídos pelo canto da sereia. Muitos debandaram e os que ficaram cederam na austeridade da doutrina e dos costumes. É de sal, muito sal, que precisa este Brasil para temperar nossa mídia, nossos costumes e, principalmente, a consciência daqueles que se apoderaram dos postos de comando no temporal e no espiritual. Ai de mim se me calar. Ai de todos os que se curvarem diante da corrupção porque como corruptos serão julgados e condenados. Não dobrarei meus joelhos, antes, manterei minha cabeça erguida para associar-me a quantos acreditam que o bem sairá vitorioso.

José Cândido de Castro

MARÇO/2001

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Prof. José Cândido de  Castro
Filósofo e Humanista
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