A CORRUPÇÃO CONTINUA IMPUNE

Sai governo, entra governo. A única governante que não sai é a corrupção que tudo domina, avassala e contamina nas cúpulas governamentais. Segundo Paulo Bisol, é a própria essência do governo que está contaminada pelo vírus da corrupção. Os fatos continuam comprovando esta realidade. Em artigo anterior a este, eu pedia a atenção dos meus leitores para o governo sem Deus que acabava de se instalar no País. Poucos dias foram bastante, para que o novo presidente da República, num de seus primeiros atos oficiais, revelasse a que veio. Foi o ato de um governo totalmente divorciado dos sentimentos humanos, morais e religiosos do povo. Sem vacilações, S.Exª. resolveu sancionar a anistia concedida pelo Congresso ao Sr. Humberto Lucena e a outros parlamentares condenados pelo órgão máximo da Justiça por corrupção eleitoral. Mais, S.Exª. decidiu sancionar também o injusto e escandaloso aumento concedido aos parlamentares, ao presidente e a toda a cúpula do governo. Em contrapartida, vetou o miserável aumento proposto para o salário mínimo, lançado contra os aposentados a culpa do veto. Aquilo que até fingido e imaginado causa horror, o presidente transformou em realidade, num gesto desumano e cruel de quem enxerga no ser humano apenas uma contingência, e não a essência da própria realidade da vida, da metafísica do próprio ser. Qualquer imperador pagão teria feito o mesmo. De tais exemplos a história dos governantes agnósticos está repleta. Em suas falas e programas de candidato o “príncipe” dos sociólogos esbanjou palavras e adjetivos para condenar a fome e a miséria que assolam nosso povo. Agora, eleito e empossado, multiplica atos que acentuam ainda mais as diferenças sociais, privilegiando uma minoria de abastados e pisando na maioria dos famintos.

No que tange aos aposentados, repudiamos, com toda a veemência, esta mentira de que são eles os responsáveis pelo não aumento do salário mínimo. Nós, aposentados, somos, sim, a classe mais roubada do País. A Previdência, no decorrer de sua história, constitui-se na galinha dos ovos de ouro e no objeto de cobiça do governo, que sempre meteu as mãos em seus recursos para construir obras faraônicas e para espalhar pelo País carcaças de obras inacabadas e abandonadas. Além do mais, o governo nunca pagou à Previdência aquilo que, por lei, devia ter pago. Somos roubados quando os recursos de nossa Previdência são alocados para cobrir buracos abertos pela incompetência ou má fé da administração de outros setores do governo. Somos garfados quando juízes, procuradores e funcionários da Justiça se aliam para assaltar os cofres da Previdência. Somos, por fim, traídos quando funcionários da própria Previdência se unem para facilitar o desvio do dinheiro dos aposentados, fruto de muito suor e muita luta. INSS significa Instituto Nacional de Seguro Social. É um seguro e, como tal, devido àqueles que o pagaram, e somente a eles. Dos 15 milhões de beneficiários, 7 milhões nunca contribuíram para o instituto, mas recebem do mesmo, atropelando a Constituição, que estabelece critérios muito claros quando distingue saúde, assistência social e previdência e determina as fontes de recursos para cada um deles. É por isto que os eternos e contumazes inimigos da Previdência vivem falando que a mesma é inviável, que irá à falência, que é preciso aposentar somente aqueles que já estão para abotoar o paletó, para sobrar mais dinheiro para aqueles que se aposentam com 8 anos de serviço e 40 e poucos de idade, acumulando uma, duas e até três aposentadorias. Tudo isto é incrível, mas acontece na terra da corrupção e da impunidade. É por aí que se escoam os recursos da Previdência, pelas rachaduras da pouca vergonha, da cobiça e da falta de escrúpulos de uma minoria que na posição do mais forte, no dizer da La Fontaine, tudo avoca para si, e aí de quem se atrever a reclamar. A imensa maioria dessa sociedade presidida pelo leão ainda se dá por contente quando sai com vida, ainda que seja para morar debaixo das pontes, beber água poluída ou disputar com urubus e com os suínos, nos bota-foras dos lixos urbanos, as migalhas abandonadas pelos leões da vida que dormem, à sombra de suas mansões, o sono tranqüilo de quem se julga mais inteligente, astuto e forte. A vitória final, porém, será do mosquito, daquele “chétif insect” que derrotou o leão e provou, mais uma vez, que as razões do mais forte nem sempre serão as melhores. Nós, aposentados, estamos em linha de batalha e já selamos nossa aliança com os futuros aposentados, os trabalhadores da ativa, para a reconquista daquilo que, de direito, é nosso, mas que, de fato, sempre andou nas mãos dos espertalhões.

José Cândido de Castro 

FEVEREIRO/95

Direitos de Reprodução Reservados
Esta publicação não poderá ser reproduzida ou transmitida
por qualquer modo ou meio, no todo ou em parte,
sem autorização prévia e escrita do autor.

 
Prof. José Cândido de  Castro
Filósofo e Humanista
Fone: 0xx (34) 3236-8349
Uberlândia - MG