Com base na narração que se encontra no livro do Gênesis e nos demais livros da Sagrada Escritura é-nos possível reduzir a vida do homem sobre a terra a três grandes etapas.
A primeira abrange a criação. A palavra Gênesis significa origem. Exclusão feita de outros mundos e do universo em geral, criados por Deus, nós destacamos apenas o que diz respeito à criação da terra, de todos os seres vivos e não vivos que a integram e, particularmente, o homem. Este ato criador obedeceu a um plano determinado. O homem foi colocado com centro deste plano. Tudo mais foi orientado para servir a ele concebido como o rei da criação e plasmado como imagem e semelhança de Deus. Uma característica o distinguia de todos os demais seres, a liberdade, uma prenda que lhe era oferecida pela síntese da união do espírito com a matéria. Este detalhe nem sempre é levado em consideração mas foi o responsável pela mutilação do plano de Deus sobre o homem. Deus é absolutamente coerente com seus atos. A partir do momento em que optou por criar um ser livre o Criador, num ato de divina coerência, passou a respeitar esta liberdade. Não quis assim impor ao homem a posse do paraíso que lhe era oferecido, mas, submeteu-o a uma prova afim de que livremente elegesse aceitar ou não o que lhe era proposto. A condição para que entrasse na posse definitiva do jardim do Éden ficou muito clara para Adão. Poderás fazer de tudo, menos o que lhe era vedado, sob pena de perder tão grande bem e ainda a própria vida, “morte morieris”, morrerás. Parece inconcebível que no primeiro ato de exercício da liberdade o homem tenha falhado tão lamentavelmente. Daí por diante estava desenhado o tipo de vida que lhe restava; sofrer as conseqüências de uma má, péssima escolha, e enfrentar a tentação de sempre usar mal da liberdade. Seu maior bem de ser racional passou a ser o complicador de sua vida. Conhecemos o bem mas optamos pelo mal.
A segunda etapa da vida do homem nasceu da misericórdia de Deus. Ele resolveu levar em consideração as limitações que colaboraram para que o homem não tivesse, naquele momento crítico, uma visão totalmente clara das conseqüências de seu ato. Foi alvo da tentação de um inimigo invejoso que não suportava amargar sozinho sua desgraça e ainda suportar o peso da concupiscência da carne. Onde faltou a humildade e a sensatez da criatura superabundou a bondade e a misericórdia do criador que se decidiu por conceder à sua criatura uma nova chance de recuperar o que havia perdido. Prometeu que lhe enviaria um salvador que apagaria seu pecado e abriria as portas da salvação para seus descendentes. O Messias firmaria uma aliança entre Deus e o homem e todos aqueles que fossem fieis a este pacto conquistariam o paraíso perdido. Toda a história do cristianismo significa exatamente isto, a chance de voltar para a Pátria verdadeira e definitiva. Já são mais de dois mil anos de marcha e de espera e, como tudo indica, nos termos da profecia, estamos para chegar. Vencedores e vencidos apresentar-se-ão ao Indefectível Juiz que apontará a cada um de nós a TERCEIRA ETAPA de sua vida que, desta vez, será definitiva: o paraíso ou a perda definitiva da visão de Deus. Antropomorfizando estes acontecimentos diríamos que os arquitetos e os operários do Grande Rei já estão trabalhando para construir a Nova Jerusalém, ou seja, reformular esta terra desfigurada pela ação do homem pecador, afim de que reassuma sua grandeza de morada dos justos. É fantástica esta expectativa e o Apocalipse esbanja vocabulário para descrever tão deslumbrante espetáculo. “O anjo falou ainda: não guarde em segredo as palavras da profecia deste livro, pois o tempo está próximo. O injusto que continue com injustiça; O sujo que continue com suas sujeiras; O justo pratique ainda a justiça; O santo continue a se santificar! Eis que venho em breve e comigo trago o salário para retribuir a cada um conforme seu trabalho. Eu sou o Alfa e o Omega, o Primeiro e o último, o Princípio e o fim. Felizes aqueles que lavam suas roupas para terem poder sobre a árvore da vida, para entrarem na cidade pelas portas. Vão ficar de fora os cães, os feiticeiros, os imorais, os assassinos, os idólatras e todos os que amam ou pratiquem a mentira”. (Apoc.12,10).
Volto à pergunta estampada no início destas considerações: Para onde vamos? A resposta é sua. Para os candidatos ao paraíso o caminho é a prática do bem, para os outros, o exercício do mal. Não havendo meio termo, nem correrias de última hora, nem advogados, nem interpretações porque a palavra de Deus se identifica com sua própria essência. LIBERDADE é uma espada de dois gumes. Tanto pode salvar-me como condenar-me.
José Cândido de Castro
SETEMBRO de 2001