Quando escrevíamos sobre a agonia de nossa escola assumimos o compromisso de voltar ao tema para pesquisar as causas da deserção de nossos mestres dos rumos da verdadeira vocação da escola como instituição da natureza para garantir a preservação da espécie humana enquanto expressão do ser racional. É o que nos propomos fazer agora.
Tudo se armou e se consumou na segunda metade do findo século vinte. No começo do referido século presenciamos verdadeira florada de instituições dedicadas à educação. Vivemos então uma esplêndida primavera de esperança, certos como estávamos de que, finalmente, havíamos encontrado o caminho de um abril radiante aonde a nossa juventude, como abelhas, viriam sugar o mel da sabedoria nos lábios de mestres imortais como Rui Barbosa, José do Patrocínio, Pedro Aleixo, Gustavo Corção e tantos outros que, com galhardia, hastearam, nas salas de aula, a bandeira da educação. Uma verdadeira plêiade de grandes colégios, orientados, especialmente, pelos Jesuítas, se estendeu pelo território nacional, entre eles os nacionalmente famosos, Santo Inácio, no Rio, São Luiz, em São Paulo , o Anchieta, em Porto Alegre , o Nóbrega, no Recife, O Loyola, em Belo Horizonte , o Anchieta, em Nova Friburgo , Estado do Rio. Mas não foram só os Jesuítas que empunharam esta bandeira. Quase todas as ordens e congregações religiosas, numerosas e florescentes na época, seguiram a mesma trilha. Só Belo Horizonte, cidade de uns quinhentos mil habitantes, naquela época, oferecia à juventude de então, tanto masculina como feminina, mais de vinte renomadas instituições dedicadas à educação. Mas, não foram só os religiosos, também os leigos brilharam na constelação de estrelas que guiaram milhões de brasileiros na estrada da vida. Alguns deles ainda sobrevivem, mas apenas como vozes esparsas que pregam no deserto, às quais me associo. Lembro-me do glorioso Ginásio mineiro como também do Colégio Batista Mineiro. Foram dias de glória para a educação e, porque não, para um povo que vivia em paz e progredia com firmeza.
Infelizmente, varou-nos a flecha de um mau destino. Eclodiu no cenário da história do século vinte, com a fúria de um furacão, a maligna ideologia do marxismo que, em curto espaço de tempo, produziu estragos, cujos efeitos, perduram até hoje, principalmente, no desmantelamento da estrutura escolar. O objetivo do marxismo era destruir o único obstáculo sólido que se opunha à sua presunção de dominar o mundo com a extinção da fé cristã que tinha como sustentáculo a família e a escola. Disparou, por todos os meios ilícitos e perversos, sua artilharia contra estas duas instituições. Dominados pela perseguição sistemática, pelo medo, pela covardia, pelo modismo, adesismo e despreparo, nossos educadores começaram a cantar o hino da Internacional Comunista, cuja letra, pregava o materialismo, o ateísmo e o ódio à religião que passou a ser apontada como ópio do povo. Desafortunadamente, a salada ideológica russa passou a fazer parte necessária do cardápio ideológico servido em nossas escolas e também, o ateísmo desembarcou nas praias do clero que optou por trocar a evangelização e a catequese pelo discurso de cunho e conteúdo socialista, marxista e adesista. Os colégios, pressionados e sufocados pela atmosfera do materialismo vigente, como também desfalcados de pessoal competente, desfalque este, produzido pela crise de vocações religiosas, pouco a pouco foram afrouxando o ideal de educar e chegaram, até mesmo, ao extremo de fechar suas portas, quando não, abri-las àqueles que só visam o lucro monetário no exercício da atividade escolar. Hoje, a escola é um comércio como qualquer outro e até pior, em qualidade, do que muitos outros. Pretender ensinar e educar só por dinheiro é verdadeira utopia de gananciosos. O educador autêntico tem que estar imbuído de uma forte doze de idealismo e sustentado por um grande amor à profissão.
Mal remunerados, nossos mestres, consomem a maior parte de seu tempo em reclamar, em promover greves, em alimentar o mau humor e, o que é de lastimar, em abarcar exagerado número de aulas e matérias para compensar o que deixam de ganhar com um número menor.
Vivendo neste clima de derrotismo e desespero, nossos professores não investem mais em seu preparo. Para quem é bacalhau basta.
Para completar, a maré brava enfrentada por nossos mestres, a população escolar que freqüenta, apenas fisicamente, as salas de aula é a mais desmotivada e apática possível. Nossos jovens não querem nada com o presente nem com o futuro. O presente só serve para consumir e destruir o que os outros construíram e, o futuro, para amargar as conseqüências dos estragos produzidos por uma vida vazia de ideais e de realizações. Nossas mocinhas estão voando mais do que pipas agitadas por correntes aéreas. Descem o cós de suas calças até bem baixo da ocorrência umbilical e um pouco acima, um pouquinho só, acima das encostas da colina de Vênus para ficarem bem abafantes e, provocantes. Colam no escutador um aparelho celular e saem pelos corredores da escola seguindo a trilha dos machinhos presumidos, os malas, que elas pretendem fisgar. Os rapazolas, os angorás da paróquia, por sua vez, vão à escola só para cortejar as gatas. Nunca vi tanta gata miando pelos corredores de nossos prédios escolares. E olhe que estes gatos são felinos, traiçoeiros, que não costumam errar o bote. E os educadores, onde estão eles? Acompanham tudo com um sorriso complacente, indulgente, tolerante. São jovens, comentam eles. Jovens sim, mas com maldade de velhos corruptos como aqueles que andavam espreitando a casta Suzana para arrebatá-la de seu marido. (dan. 13,22). À noite, correm todos para as boates, para os escurinhos, onde se ouvem miados de gatas no cio e uivos de chacais famintos. É reflexo da família aviltada, reduzida a um espelho perante o qual as mães emancipadas procuram traçar o retrato que elas querem para suas filhas se exibirem perante as câmeras de televisão ou nas páginas obscenas da revista Play Boy.
Por último, a causa das causas deste ocaso de nossa escola é a ausência e a omissão do clero. A Igreja sempre foi a grande educadora dos povos. Educar sem religião é impossível. Estou pedindo emprestado ao poeta Guerra Junqueiro os emocionantes versos que ele escreveu como dedicatória no livro Musas em Férias. Preciso matar a pungente saudade que enternece meu coração de educador. Com esses versos encerro este meu trabalho. São quase um epitáfio que deposito sobre o mausoléu de nossa querida e pranteada escola.
Recordam-se vocês do bom tempo d'aurora,
Dum tempo que passou e que não volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em junho os bandos de pardais?
Coroava-nos a fronte um diadema d'aurora,
E o nosso coração vestido de esplendor
Era um divino abril radiante, onde as abelhas
Vinham sugar o mel na balsâmia em flor,
Que doiradas canções nossas bocas vermelhas
Não lançaram então perdidas pelo ar!...
Mil quimeras de glória e mil sonhos dispersos,
Canções feitas sem versos,
E que nós nunca mais havemos de cantar!
Nunca mais! Nunca mais! Os sonhos e as esperanças
São áureos colibris das regiões da alvorada,
Que buscam para ninho os peitos das crianças.
E quando a neve cai já sobre a nossa estrada,
E quando o Inverno chega à nossa alma, então
Os pobres colibris, coitados, sentem frio,
E deixam-nos a nós o coração vazio,
Para fazer o ninho em outro coração.
Meus amigos, a vida é um Sol que chega ao cúmulo
Quando cantam em nós essas canções celestes;
A sua aurora é o berço, e o seu ocaso é o túmulo:
Ergue-se entre os rosais e expira entre os ciprestes.
Por isso, quando o Sol da vida já declina,
Mostrando-nos ao longe as sombras do poente,
É-nos doce parar na encosta da colina
E volver para trás o nosso olhar plangente,
Para trás, para trás, para os tempos remotos
Tão cheios de canções, tão cheios de embriaguez,
Porque, ai! A juventude é como a flor do lótus,
Que em cem anos floresce apenas uma vez.
É como o noivo triste e quem morreu a amante,
E que ao sepulcro vai com suas mãos piedosas
Sobre um amor eterno - o amor d'um só instante
Deixar uma saudade e uma coroa de rosas;
Assim amigos meus, eu vou sobre um tesouro,
Sobre o estreito caixão, pequenino, infantil,
Da nossa mocidade, a cotovia d'ouro
Que nasceu e morreu numa manhã d'Abril!
Desprender, desfolhar estas canções sem nexo,
Estas canções, tão simples, tão banais,
Mas onde existe ainda um pálido reflexo
Do tempo que passou, e que não volta mais.
Obrigado, amigo Guerra Junqueiro, por ter emprestado aos meus lábios a expressão do que necessitavam ao depositar sobre o esquife da paixão de minha vida, minha adorada e querida escola, uma coroa de flores perfumadas pela eterna saudade de quem sempre amou construir na alma dos jovens o edifício do homem eterno, do homem imagem e semelhança de Deus. Para você querida escola, um carinhoso beijo, umedecido pelas lágrimas de quem pranteia sua ausência.
José Cândido de Castro
SETEMBRO/2004