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OS DEFICIENTES FÍSICOS

São João Evangelista (9,1) relata uma passagem da vida de Cristo que põe em evidência a profundidade do mistério da redenção. Narra o Apóstolo: “Ao passar, Jesus viu um cego de nascença. Os discípulos perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego?. Foi ele ou seus pais? Jesus respondeu: Não foi ele que pecou, nem seus pais, mas ele nasceu cego para nele se manifestarem as obras de Deus”.

Nós, comumente, temos a tendência de visualizar em nossas enfermidades, maselas e deficiências um sinal de castigo ou de desgraça. No entanto, a verdadeira sabedoria da palavra do Mestre infalível nos aponta o exato sentido da cegueira, da surdez, da paraplegia e de outras enfermidades.Elas existem para que, por elas, se ponha em evidência o poder de Deus. Lá no evangelho aquele cego apareceu para que o Messias tivesse a oportunidade de provar, com um milagre, que Ele era o enviado de Deus para realizar a salvação dos homens.

Aqui, os deficientes aparecem com uma dupla missão: a primeira de ensinar-nos a valorizar o dom da saúde perfeita de que gozamos. Nós possuímos duas pernas, dois braços, dois ouvidos, estamos, de tal modo, acostumados com sermos fisicamente perfeitos que nos esquecemos de refletir sobre seu valor e, o que é pior, freqüentemente, usamos desses dons para praticar o mal. Somente quando perdemos um desses órgãos é que acordamos para avaliar sua real importância. A segunda missão do deficiente consiste em criar-nos oportunidades para a prática do bem. Enquanto perfeitos, encaramos o deficiente com um sentimento de conformidade, de passividade perante a dor da ausência e da privação daquilo que, para nós, é vital e indispensável. Com freqüência, nos esquivamos de sua presença porque ela nos incomoda, nos obriga a refletir sobre a hipótese de chegarmos a ser como um deles. Sentimos compaixão, mas uma compaixão estéril que não nos move a uma ação, a um gesto positivo de solidariedade. Quanto muito damos um empurrãozinho numa cadeira de rodas ou paramos, não sem certa impaciência, o carro, para que um manquitola atravesse a rua. Ninguém se sente à vontade dentro de uma enfermaria de excepcionais porque o astral é baixo. No entanto, o número deles é muito maior do que se imagina. Nós, organicamente perfeitos, somos quase uns privilegiados. Precisamos ser muito agradecidos a Deus partindo para uma atitude prática de apoio permanente a estes menos favorecidos. Às autoridades corresponde o dever maior de criar os dispositivos legais e administrativos que supram as deficiências dos que ralam pela vida no cumprimento de um destino que só mesmo sob o prisma da divina Providência pode ser entendido e explicado. Nossas leis são muito tímidas e as atitudes dos que governam omissas quanto ao transporte, ao acesso às repartições públicas e aos serviços mais elementares da higiene e necessidades pessoais. A justiça precisa entender que, na falta de leis mais positivas, prevalece a lei que fala, isto é, a decisão do magistrado que fala soberanamente em nome da lei natural. “Necessitas caret lege”. A necessidade está cima da lei, é o que ensina a sabedoria popular. Acabo de ouvir no noticiário nacional que foi aprovada pelo Congresso Nacional uma lei que estabelece prioridades para os idosos na tramitação e julgamento de processos. Nada mais justo e acertado porque o idoso não dispõe mais de tempo para esperar pela decisão de processos que se arrastam por vinte ou mais anos pelos meandros da burocracia processual. Estou acompanhando, porque a novela ainda não acabou, o caso de um paraplégico, aqui em Uberlândia, a quem surrupiaram um carro adaptado às suas necessidades físicas. Em três dias apenas uma quadrilha conseguiu, por mandado judicial, apreender e tomar dele o carro que legitimamente lhe pertencia, conforme documentação acostada nos autos do processo por ele movido contra a quadrilha e julgado procedente pelo juiz que lhe deu ganho de causa. Pois bem, apesar de tudo isto, já se vão mais de seis meses de vaivém nos corredores do Fórum e delegacias de policia e o carro ainda não lhe foi devolvido, em flagrante e aleivoso desacato à Justiça. Esta situação lhe acarreta enormes prejuízos porque o veículo é ferramenta absolutamente indispensável ao seu trabalho, ou seja, são as pernas de que necessita para se locomover e ganhar o pão para a esposa e seus três filhos menores. Este mesmo lutador é constantemente discriminado no trânsito onde lhe são aplicadas multas por se encontrar dentro do carro sem condições de locomover-se. O policial não está nem aí. À sombra de seu capacete que ele confunde com a lei, ao invés de ajudar prefere meter a caneta e sublinhar com gestos ríspidos e ameaçadores a lavratura da multa que vai engrossar o caixa da intolerância e tirar da boca de crianças o fruto do suor de um pai que sofre e se consome numa luta inglória contra tudo e contra todos.

No entanto, os deficientes existem para que tenhamos neles oportunidade de praticarmos o bem e não de hostilizarmos os que já são mais do que hostilizados pelo infortúnio. “Divinum est sedare dolorem”. É divino amenizar a dor dos que sofrem. Muitas vezes é com um copo de água que nos divinizamos. Não deixe escapar as oportunidades de se fazer grande em pequenos gestos.

José Cândido de Castro

FEVEREIRO/2001


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Prof. José Cândido de  Castro
Filósofo e Humanista
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