Em matéria por nós anteriormente publicada, advertíamos que Deus é o grande ausente da vida do homem e que esta ausência é a causa de todos os males que afligem a humanidade. Nada de mais lógico e conseqüente. Onde falta Deus abunda o diabo por força da incompatibilidade entre o bem e o mal. Deus ou o demônio. Ninguém poderá servir a dois senhores (Mt.6,24). O objeto deste antagonismo é a disputa pela liberdade humana. Deus nos aponta para o bem, expressão máxima da autêntica liberdade, e o demônio nos acena com o oposto, ou seja, com o mal que escraviza e tem como único objetivo o ódio a Deus. Este cabo de guerra teve sua partida no primeiro instante da criação quando Deus mostrou a Adão todo o bem que lhe era oferecido, não como algo que lhe era imposto mas proposto como objeto de conquista porque Deus jamais, iria incorrer na inconseqüência de criar o homem livre para, em seguida, fazer-lhe imposições. Uma coisa é impor, outra, oferecer. A condição não tolhe a liberdade, apenas fundamenta o mérito. Não há mérito onde não há escolha, onde não houver liberdade para rejeitar o mal e eleger o bem que se identifica com a própria vontade de Deus. Escolher o bem significa beber da fonte da vida, assim como optar pelo mal equivale a abraçar a morte. Eis o grande mistério, a imensa responsabilidade, a suprema decisão do homem: decidir o próprio e definitivo destino. Deus não decide por nós, apenas nos mostra qual a decisão acertada.
Tudo o que Deus cria é bom e orientado para a vida. O mal entrou e continua entrando no mundo através da auto-suficiência do homem, do equivocado mau uso da liberdade. Assim foi com o primeiro homem, e, via de conseqüência, com todos os seus descendentes. Não resta, porém, dúvida de que a prática do mal conta sempre com a presença e a atuação do demônio. A figura do tentador aparece com muita ênfase quando a infernal serpente sopra no ouvido de Eva aquela melopéia: “Sereis como deuses se descumprirdes a ordem de Deus”. É esta a questão. Para ser Deus é preciso descumprir a vontade de Deus. Haverá absurdo maior do que este? A conversa daquela desprezível serpente passa a ter mais valor para Eva do que a infinita sabedoria do Criador que tudo ordenou afim de que a humana criatura conquistasse em definitivo a felicidade para a qual havia sido criada. O demônio sempre se fez presente nos destinos humanos, mas, em determinadas circunstâncias esta presença se acentua. O diabo é astuto e oportunista e não desperdiça as oportunidades que aparecem de externar seu ódio a Deus e assumir sua condição de representante do mal. São Pedro, na sua la.5,8 nos adverte: “Pois o diabo que é inimigo de vocês, os rodeia como um leão que ruge à procura de quem devorar”.
O demônio percebe e, mais do que percebe, sabe que o tempo de que dispõe para a prática de suas perversidades está cada vez mais curto e por isto pôe o pé no acelerador. Esta blitz diabólica se volta exatamente contra o bem e os bons. Conta-se que um eremita teve uma visão. Deparou-se com uma grande e corrompida cidade. Na entrada da metrópole assentava-se um velho, solitário e sonolento demônio. Mais adiante, num outeiro, erguia-se um mosteiro de monges. Em suas proximidades a movimentação e a agitação dos chifrudos era enorme. Entravam e saiam como marimbondos num vespeiro. Nosso eremita estranhou o fato por parecer-lhe que deveria ser exatamente o contrário: muita agitação na cidade pecadora e paz entre os monges. O interlocutor observou-lhe que era aquilo mesmo que estava vendo. Na cidade nada mais havia o que conquistar porque cessara toda resistência. Já no caso dos monges a parada era dura por se tratar de um batalhão de elite, especializado em desmascarar artimanhas diabólicas. Com a aproximação do fim dos tempos as forças do mal portem para cima dos bons numa tentativa de emboscá-los. Aqui e ali surgem episódios, cada vez mais freqüentes, que revelam a atividade diabólica. Ainda está muito vivo em nossa memória o caso daquela moça Suzane que, em São Paulo, tramou, com o namorado, o assassinato dos próprios pais. Peritos e entendidos apontaram várias e possíveis causas de tão hediondo crime. Ninguém, contudo, atinou com a verdadeira origem do fato: DOMÍNIO DIABÓLICO. Nossa juventude está intoxicada pelas drogas, pela depravação do sexo, pelo ateísmo prático que alija da própria vida a presença de Deus e pelo materialismo que enxerga no homem tão somente sua animalidade. Comer, beber, drogar-se, farrear, corromper, fornicar, estuprar, matar, eis os grandes ideais que tomaram conta da vida e da atividade do homem animal. Se tal descalabro não representar o poder das trevas será então porque o demônio não existe e a palavra e os preceitos de Deus são quimeras, ambas as hipóteses absolutamente absurdas.
A repetição diária de fatos delituosos revela, com muita evidência, a presença e a atividade cada vez mais assustadora do príncipe das trevas. “Leão rugindo e urso faminto, é o injusto governando um povo fraco”. Assim o livro dos Provérbios define o diabo. (Pro.28,15)
PRECISAMOS TER MUITA CORAGEM PARA LUTAR, CORAGEM ESTA NECESSÁRIA NÃO APENAS NOS ENTREVEROS DAS BATALHAS, MAS NA HORA CRUCIAL DA DECISÃO ENTRE O BEM E O MAL.
José Cândido de Castro
FEVEREIRO de 2003