É bem assim que podemos definir o recente maremoto da Ásia.
Nós que acompanhamos pela televisão o desenrolar da tragédia nunca imaginamos que pudéssemos presenciar tão dantesco espetáculo. Mais de cento e cinqüenta mil pessoas arrastadas e tragadas pela fúria do mar e, nem as mais sólidas edificações resistiram ao impacto das ondas.
Estamos acostumados a ouvir falar sobre sinais que anunciam o fim dos tempos, mas, até agora, nunca os havíamos visto projetados na tela da realidade com tamanha clareza. São Lucas (21.25) referindo-se a um dos detalhes destes sinais afirma que: “Na terra, as nações cairão no desespero apavoradas com o barulho do mar e das ondas”. Ora, foram várias as nações que se apavoraram com a fúria do gigante líquido e o desespero foi a tônica de toda aquela catástrofe.
Uma constante histórica chama nossa atenção para o fato de que as grandes tragédias acontecem provocadas pela força das águas e, quase sempre, resultam de um processo de corrupção moral ou ambiental fruto do desrespeito às leis de Deus e da natureza.
É clássico o exemplo do dilúvio. “Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo o projeto do coração humano era sempre mau. Então Javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra e seu coração ficou magoado. E Javé disse: Vou exterminar da face da terra os homens que criei, e junto também os animais, os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter feito” (Ge.6,5) E todo o tom da conversa de Deus com Noé girou em torno da corrupção que acabou por provocar a cólera divina. Foi tão arrasante o castigo que Deus se comoveu e disse: “... de tudo o que existe nada mais será destruído pelas águas do dilúvio e, nunca mais, haverá dilúvio para devastar a terra..
Os maremotos, as enchentes devastadoras, os furacões ocorrem como fenômenos regionais que nos advertem sobre os riscos que corre a humanidade, não já de perecer num dilúvio, mas de morrer de sede por falta de água potável. Mas, o que importa não é propriamente a existência destes fatos e sim, a inércia do homem em entendê-los e interpreta-los. “Aprendei, pois da figueira. Quando seus ramos estão tenros e as folhas brotam, sabeis que já está próximo o verão” (Mt. 24,15). O homem, como uma avestruz alucinada, esconde a cabeça para não perceber o perigo.
Em menos de uma semana após o maremoto da Ásia em que pereceram mais de cento e cinqüenta mil seres humanos, os homens aos milhões, correm para as praias, para as praças e avenidas a fim de erguer a taça espumante do prazer como se nada tivesse acontecido ou estivesse para acontecer. Desloca-se o eixo da terra, derretem-se as geleiras, aquecem-se os oceanos e aumenta o volume de suas águas, ferve o efeito estufa, secam os rios e as fontes, estorrica a vegetação, medra todo o tipo de doenças, as mais exóticas, milhões mirram de fome, enquanto a autoridade da nação mais poderosa do mundo se recusa a assinar o protocolo de Kioto sob a alegação de que não pode prejudicar a atividade daqueles que garantem os prazeres da vida. O mundo de hoje é dominado pela sociedade das avestruzes, ratitas que escondem a cabeça e correm alucinadamente atrás dos prazeres, pouco lhes importando se uma onda de quarenta metros de altura corre atrás deles para traga-los. São passados apenas quinze dias e ninguém mais se lembra da tragédia asiática. As praias continuam cada vez mais cheias e o pipocar das tampas de champanhe cada vez mais intenso numa tentativa de sufocar os gemidos da natureza em pranto. As avestruzes humanas não querem saber se existe Deus, se céu ou inferno, se pecado ou virtudes, se deveres a cumprir, se outra vida que é preciso garantir. Laissez faire, laissez passer. Deixa para lá, faça vista gorda. Comamos e bebamos porque amanhã morreremos. É este o destino desta geração de pagãos: comer, beber, mergulhar-se no vício da carne, roubar, matar e depois morrer como qualquer irracional que não tem compromisso algum com a vida que transcende o tempo e se fixa em definitivo na eternidade. O importante é ter a barriga cheia e a cabeça envolta nos vapores do álcool. Realmente somos uma geração de plantadores de bananeira: bunda para cima e cabeça para baixo. Cada vez mais me perco no mistério que separa meu entendimento de minha capacidade de entender. Entenda quem puder e quem quiser. A verdade é, no dizer de Deus, só temos, no máximo, cento e vinte anos para descobrirmos o que ninguém pode negar que chegaremos todos ao fim, todinhos da silva.
José Cândido de Castro
JANEIRO/2005