O profeta Isaias (58.1) nos conclama a gritar: “Grite a plenos pulmões, sem parar; solte como trombeta o som de sua voz; mostre ao meu povo os seus crimes e o faça conhecer seus pecados”. É o que eu tenho feito e continuarei fazendo até que me oiçam ou que a morte me reduza ao silêncio para sempre.
Venho insistindo na necessidade que temos de abrir nossos olhos para a realidade da corrupção que vai contaminando, assustadoramente, os indivíduos, bem como nosso organismo social.
Hoje, vou passar para uma adolescente de 16 anos a missão de gritar com seu exemplo. Por motivos óbvios, deixo de mencionar o nome de quem escreveu, como também o de quem recebeu a denúncia. Guardo, contudo, comigo, os originais manuscritos que aqui transcrevo na íntegra. Dia 13/03/2001. FULANA... “Não tô muito bem não! Eu e meu namorado terminamos, e tô entrando em depressão. Tenho certeza disso. Ontem para esquecer um pouco da dor fumei maconha demais, e passei muito mal. Fumei 2 bombas, uma atrás da outra. Sabem tem horas que penso em desistir da vida. Ontem fiquei pensando... Tô chateada com a vida! Hiii! Tô doida, já te disse isso! Para você ter uma idéia tô tão loca, que ontem fui passar o uniforme de meu irmão, e ele estuda na Escola A, e passei a camiseta da Escola B e queria sem ver que ele vestisse a blusa. Ele falou vc tá doida, e depois de meia hora fui perceber. Fulana, perdi meu irmão, ou seja, perdi o respeito dele com relação a mim e vice-versa. Ele tá muito interesseiro. Pode ser só fase, ele tá com 13 anos (não confio nele). Minha irmã é um pouco falsa (não confio nela). Meu pai tomou minha mãe de mim. Nos afastamos. Ela só me dá as coisas e acabou as conversas, acabou o diálogo. Faz quanto tempo que não dou um beijo nela? Nem sei! Meu pai eu odeio ele com todo o ódio do mundo... Perdi a única pessoa que amava e confiava por culpa de meu pai! E assim vai! Tô indo mal de novo no Colégio. Tô me afundando nas drogas de novo! Sei que também tô errada, mas tudo o que quero sai errado. Tô desesperada. Não tenho amigas. Tô procurando um emprego e nada. Vou sair de casa! Se eu estiver viva! Obrigada por querer saber do meu dia! Beijo e um queijo. Ass................................”.
É este, meu caro leitor, o retrato escrito de uma jovem. Multiplique-o n vezes e terá o retrato da juventude de nosso país. Os que sobreviverem serão os pais, os educadores, os governantes de amanha, e você, debaixo da terra, estará se perguntando; porque não entendi isto antes, a tempo de, pelo menos, tentar fazer minha parte? Sua pergunta, porém, chegará tarde demais. Observe bem a gênese da desgraça desta infeliz jovem. A primeira conseqüência do vício da droga é a derrocada da família. Odeia o pai, não se entende mais com a mãe, não confia nos irmãos, separou-se do namorado. Está sozinha. Busca uma saída. Afunda-se mais nas drogas. Fica doida e desesperada. Encara a morte como a única solução e admite a fuga da casa paterna como uma oportunidade para consumar seus desígnios de loucura.
Haverá, meus amigos, algo de mais sério, de mais grave do que a indiferença, a apatia dos pais, dos educadores, dos governantes, da sociedade face à onda de destruição que se joga sobre o futuro da humanidade?
Trata-se de autêntico genocídio, não apenas de grupos, mas de toda a espécie humana. Com efeito, são exterminados os indivíduos, as instituições políticas, sociais, culturais, lingüísticas e os sentimentos nacionais, morais e religiosos.
A mídia, em particular a Televisão, são os grandes culpados por esta destruição de nossos valores morais, religiosos, cívicos e culturais. O que temos não é uma imprensa no seu verdadeiro sentido, mas uma escola onde se ensina e se divulga tudo em matéria de crime, onde se promove a imoralidade e a guerra aos bons costumes, onde se exalta e se exibe a mais descarada pornografia. Sozinho, certamente, não tenho forças para reverter este quadro. Posso fazer, contudo como estou fazendo, a minha parte. E você não poderá fazer a sua? A união faz a força e é nela que está a estratégia para vencermos esta guerra. Grite, proteste, una-se a quem está lançando uma iniciativa. Deixe de ser uma avestruz que esconde a cabeça na grama fingindo ignorar o perigo. O lobo está a dois passos e as aves de rapina já sobrevoam o local na expectativa de devorar o que sobrar do banquete da fera.
José Cândido de Castro
MARÇO/2001