O planeta homem se divide em dois hemisférios: norte e o sul. O hemisfério sul, situado abaixo da cintura, representa o que temos em comum com os animais irracionais. O hemisfério norte, acima do abdome, é a sede dos valores nobres do ser humano, radicados que são na natureza espiritual da alma e responsáveis por sua condição de ser racional. Animal racional, eis a essência metafísica do homem. Matéria e espírito, dois elementos de naturezas completamente distintas, cuja união é absolutamente necessária para se completar um novo ser. A matéria depende do espírito para que possa operar e este, por sua vez, necessita da matéria como base visível e perceptível de suas operações. O espírito subsiste sem a matéria mas não age sem ela, enquanto que a matéria perde sua organização e se desintegra sem a presença da alma, seu princípio aglutinador, sem o qual, cessam completa e definitivamente suas atividades características de matéria viva. É a morte....
Esta guerra a que nos referimos se trava no cerne da essência metafísica do homem. Se prosperar, as conseqüências seriam as mais desastradas possíveis porque significariam a ruptura, entre outras, do equilíbrio metafísico da essência humana que consiste no domínio da razão sobre o determinismo dos instintos característicos da matéria.
A ênfase que, hoje em dia, se dá ao animal, tende a colocar em segundo plano o primado do espírito. Esta supervalorização do animal se manifesta na exasperação do consumismo que visa, exatamente, a exaltação das aparências e das vulgaridades. A gula, responsável pela crescente obesidade típica da matéria, a exploração e a prática do sexo como expressão máxima do prazer, o culto das formas físicas mais provocantes do sexo feminino, a exaltação da filosofia hedonística da vida que situa no prazer o significado maior da existência são todos reclamos da matéria que encontram eloqüente resposta na conduta de nossa sociedade. A prática do crime em todas as suas modalidades se constitui no mais evidente sinal de que a matéria ganha espaço na sua luta contra o espírito. O embrutecimento nunca foi nem será manifestação de progresso ou de grandeza do ser racional. O ser humano se desumaniza a olhos vistos. As instituições responsáveis pela salvaguarda dos valores superiores e de referência da conduta humana são pulverizadas, como é o caso da família e da escola. Seu lugar é ocupado pelo amor livre, pela sodomia, pelo divórcio, pelo aborto e pelo poder alucinante das drogas que imbecilizam, alienam e obnubilam o exercício da razão. A maioria aposta na promoção da matéria como objetivo a ser colimado.
Dissemos mais acima que a matéria, ao se distanciar do espírito se corrompe e se desintegra em partes. É esta a história quotidiana dos féretros que, silenciosos, percorrem as ruas de nossas cidades a caminho dos últimos sete palmos de terra onde tudo se converterá em pó. Sim, corremos atrás do nada, deste nada que, por ser nada, significa a perda, não do espírito em si, porque este, ontologicamente, não perece mas perde sua destinação gloriosa de imagem e semelhança de Deus para identificar-se, em definitivo, com a figura de Lúcifer, o senhor das trevas. A matéria, por sua vez, perde sua elevação à categoria de ser vivo com sua redução à inércia do pó.
Face ao que até agora ficou dito, cabe a pergunta: quem será o vencedor ou o perdedor desta guerra? AO que respondemos que haverá tão somente perdas de ambas as partes, não na linha ontológica do ser, como anotamos, porque tanto o espírito quanto a matéria continuarão existindo. O estrago se manifestará na linha das finalidades, dos objetivos da união entre o corpo e a alma. O objetivo do Criador era que, deste consórcio, resultasse a glória de Deus e a felicidade do homem. Ora, com esta guerra não se glorifica a Deus nem se promove a felicidade da criatura. É algo parecido com a união hipostática da natureza divina com a humana da qual resultou a pessoa de Cristo, Deus e Homem verdadeiro que tornou possível a redenção do homem. A natureza humana nada teria significado no resgate do homem se não tivesse sido avocada pela divindade de quem recebeu toda a força de corredentora. Assim, a matéria, sem a presença do espírito do qual adquire todo o valor que ostenta, nada representaria. São Mateus no capítulo 16,26 de seu evangelho nos faz uma pergunta verdadeiramente inquietante para os que andam deslumbrados com o progresso e as conquistas da matéria: “Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier a perder sua vida?”. A vida a que alude o Evangelista é a verdadeira, a definitiva, a eterna. A matéria, destacada pelo Criador para desempenhar papel relevante no projeto humano, poderá vir a constituir-se no maior entrave para muitos que decidiram pautar sua existência no erro de nosso antepassado Adão, minimizando a grande chance que nos é oferecida pelo novo Adão, o Cristo. Esta oportunidade, contudo, tem sua duração limitada. Como toda a segunda época concedida ao aluno reprovado na primeira tem sua data marcada, também esta está agendada pelo Grande Mestre e Senhor do tempo e da eternidade. Há três realidades que fogem ao nosso controle: a flecha disparada, a palavra dita e a oportunidade perdida. Perder uma oportunidade como esta é coisa de louco.
José Cândido de Castro
AGOSTO de 2002