O HOLOCAUSTO DO IDOSO

Por mais incrível e insustentável que pareça, o idoso se converteu hoje na vítima predileta a ser imolada nos altares do progresso e da  modernidade.  Antes,  quando  os  sacrifícios  eram oferecidos a Deus, imolavam-se cordeiros, símbolos da inocência e da pureza. Hoje, quando os homenageados são os deuses da injustiça, da corrupção e da violência, sacrificam-se os idosos por inúteis, indesejáveis e onerosos aos cofres  públicos,  tais  como  são vistos e considerados pelo pragmatismo social.

O idoso é imolado quando lhe negam o direito de trabalhar   para  viver  e sustentar sua família. É considerado por intérpretes da lei como um incapaz absoluto. É imolado  quando  se derrete  nas  filas  do  INSS  a  espera  de  que lhe concedam uma miserável aposentadoria de salário  mínimo.  Quando  se  consome  nas  intermináveis  filas  do  SUS,  sonhando  com  um atendimento médico ou suplicando que lhe forneçam um atestado de óbito para sepultar o que lhe  resta  de  um  ente  querido  devorado  pela  fome e pela doença. Quando é discriminado e preterido em benefício dos poderosos  e  daqueles  que  não  bebem  champanhe  na caneca do pobre. Quando é reduzido à condição de sucata humana  espalhada  pelas  ruas e avenidas das metrópoles do país. Quando é convertido em mendigo de aluguel  para  justificar e coonestar o desvio  de  verbas  pressupostamente  destinadas  à  assistência  social.  Quando,  em  suma, é esquecido  e  ignorado  como  o  grande  construtor   deste  progresso  agora  esbanjado   pelas gerações do presente.

A infância e a juventude conquistaram seu código, tão generoso que lhes garante o direito até de matar sem ser punido, além de outras vantagens que  induzem  os jovens a assimilarem uma concepção errônea de suas responsabilidades perante  a  vida  e  seus  deveres  para  com seus semelhantes. Da mesma forma o consumidor  tem  ao  que  se agarrar para defender seus direitos. E o idoso, onde está seu código? Na teoria ouve-se muito  discurso sobre o fato de que estamos caminhando para uma geração de idosos, de que é preciso  cuidar  dos  velhinhos, dos vovôs. Na prática, o único dispositivo legal que fala alguma coisa é o artigo 7. XXX da Constituição Federal que proíbe discriminar por idade na contratação para o trabalho. Mesmo assim, este dispositivo legal é neutralizado por um sem número de casuísmos e interpretações que o inviabilizam e garantem a filosofia nazista, segundo a qual, aquilo  que  é  inútil  deve  ser atirado  no  forno  crematório.  Nosso  país  está  precisando  de  uma  lei  específica  que defina claramente a situação do idoso. Uma lei clara e categórica que deve ser aplicada como soa, sem interpretações,  sem  casuísmos,  sem  conversa  fiada,  boa  para  congestionar  a  justiça  com processos e para ganhar tempo até que o idoso complete seu calvário nos braços de uma cruz. Estamos cansados desta rotina de leis que locupletam nossos códigos mas que nada resolvem, nada decidem nem determinam. A  lei  deve  ser  assim: É  proibido  discriminar. Discriminou? Cadeia pelo tempo que a lei determinar, e pronto. Querem  fazer  uma  reforma  do  Judiciário para valer?  Reformem  as  leis,  reduzam  seu  número  e  as  que  restarem,  aplique-as  sem subterfúgios.

José Cândido de Castro

JUNHO/2000

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Prof. José Cândido de  Castro
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