EM DEFESA DOS HONESTOS

O honesto é uma classe em extinção em nosso país, não porque ele não exista, mas porque não é considerado nem valorizado como tal. Tempos atrás, em Belo Horizonte, onde morava, fui abordado por um amigo que me disse o seguinte: “Estava à sua procura porque há uma firma que precisa de um homem, de sua capacidade para administra-la. Você topa?” Respondi que ia depender da proposta que me fizessem. Foram, por eles, solicitados meu currículo e minha ficha cadastral, no que foram prontamente por mim atendidos.Depois ninguém mais voltou ao assunto. Reencontrando meu amigo, perguntei-lhe o que havia acontecido. Ele, muito constrangido, me afirmou que resolveram não me contratar porque minha ficha cadastral era muito boa, boa demais, o que poderia criar embaraços para a firma.

O que sucedeu comigo deve acontecer com outros que são relegados, justamente porque honrados e honestos. As trevas não gostam da luz e o corrupto vê sempre no honesto uma ameaça contra seus desígnios. Opera neste país uma verdadeira máfia de combate às pessoas honestas. Não se sabe como nem porque os ladrões conseguem tudo o que querem e planejam. Em contrapartida, os bons são cada vez mais subjugados pela ação nefasta dos marginais. Para eles sobram documentos, procurações, isenções, cargos e posições que facilitam sua atividade. Já, a favor do honesto, nem procurações lavradas em cartório tem validade. Tudo é contestado e posto em dúvida. Sua vida é vasculhada e seu passado de cidadão íntegro é ignorado. Só falta indagarem sobre a cor de suas vestes íntimas. Tudo isto em nome da lei, ou melhor, das portarias, circulares e normas que estão acima da lei e pelas quais este país é governado. Os honestos são sempre nivelados aos corruptos e submetidos ao arbítrio de incompetentes, que, por ignorarem as leis e os direitos de cada um, fazem exigências descabidas e infernizam a vida de quem procede corretamente. É freqüente ouvir-se este desabafo: “De que serve ser honesto neste país se os corruptos levam sempre a melhor?”. Desilusão, desânimo e frustração são os sentimentos de quem se atreve a enveredar pelos caminhos da virtude.

O vergonhoso episódio do último carnaval do Rio é mais uma demonstração do desprestígio e da marginalização em que vivem as pessoas honestas deste país. Conseguir uma audiência com o presidente da República para tratar de assuntos sérios, relevantes e de interesse coletivo é praticamente impossível. No entanto, uma mulher vulgar e brejeira, seminua, joga beijinhos para o presidente, é correspondida e, com a maior facilidade do mundo, entra em seu camarote, o abraça e é fotografada com o mesmo. Isto, sem falar nos grandes assuntos cochichados entre eles.

Vivemos ou não no paraíso das vulgaridades e da corrupção, onde os desonestos ditam as normas e ainda pretendem que o povo vote neles como seus legítimos representantes? A mudança está em nossas mãos, e só não a faremos se resolvermos também nós deixarmos a coisa correr até a consumação desta nova Sodoma que, de pecado em pecado, vamos construindo no solo desta pátria amada, Brasil.

Você, brasileiro, tem nas mãos a mais poderosa das armas contra os corruptos – seu voto. Se não houver em quem votar, anule-o, mas nunca prestigie um canalha. Seria dar uma bofetada na face da honrada mãe pátria.

José Cândido de Castro

MARÇO/94


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Prof. José Cândido de  Castro
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