Intranqüilidade é o grande ônus da vida de quem consegue ultrapassar a marca da compulsória decretada pelo artigo 40 da Constituição Federal. Ele, o idoso, se torna intranqüilo porque, ainda que capaz, não pode mais trabalhar porque a lei o proíbe e porque a aposentadoria que lhe é imposta, em termos de rendimentos, não é suficiente para sustentar a família.
Intranqüilo porque, no caso de uma doença, própria, ou de algum membro da família, não tem como enfrentar os custos médico-hospitalares.
Intranqüilo porque, não sabe qual será o comportamento da família e da sociedade a seu respeito, se vai tornar-se um indesejável, um fardo que ninguém gostaria de carregar. Isto, depois de ter arcado, durante uma longa vida, com o trabalho de manter e sustentar a vida de muitos.
Intranqüilo porque, aquele senso de responsabilidade que sempre orientou suas ações e seu comportamento escapa ao seu controle no que diz respeito ao futuro de sua família. O que irá acontecer com aqueles que sempre amou, foram o ideal de sua vida e por cuja felicidade sempre batalhou.
Intranqüilo, sobretudo, porque a incerteza passa a ser única certeza de que a vela da vida está se apagando e que seu pavio sobrenada o pequeno lago de cera que ele mesmo vai derretendo.
Este retrato do idoso não parece, em nada, sensibilizar a quem tem o dever de garantir a prática da justiça quer seja distributiva, quer comutativa. Eles se esquecem que, um dia, poderão ter que conviver com esta realidade. Os extremos da vida, a infância e a velhice se tocam no sentido de que merecem cuidados especiais por parte da sociedade. Só que a infância é a esperança, o futuro, a promessa de realização de muitos sonhos, enquanto que a velhice é o passado, o ocaso, o fim de qualquer esperança. É o desabafo do poeta Antônio Thomaz que me atrevo acrescentar a estas minhas reflexões sobre o idoso: “Quando partimos, no verdor dos anos, da vida pela estrada florescente, as esperanças vão conosco à frente e vão ficando atrás os desenganos. Rindo e cantando, céleres e ufanos, vamos marchando descuidadosamente... Eis que chega a velhice, de repente, desfazendo ilusões, matando enganos. Então nós enxergamos claramente como a existência é rápida e falaz e vemos que sucede, exatamente, o contrário dos tempos de rapaz: os desenganos vão conosco à frente e as esperanças voa ficando atrás”.
Não gostaria que meus leitores interpretassem esta linguagem como derrotista ou negativista. Ela exprime, tão somente, uma realidade que não precisaria existir se o ser humano fosse mais humano, menos egoísta e pragmatista. A alta sociedade, aqueles cinco por cento, investe bilhões na luxuria, no desperdiço e regateia migalhas que, talvez, fossem suficientes para resolver muitos problemas, inclusive, o do idoso. Mas, além desta, há uma outra realidade, a definitiva, que transcende a mesquinhez humana e mergulha na infinita grandeza de Deus de quem receberemos a milionária recompensa destinada aos que forem recebidos no seio de Abrahão. Investir na outra vida é o grande negócio para o homem que se acerca do final do tempo que lhe foi concedido para armazenar tesouros para a economia do além, onde, nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não assaltam nem roubam.
José Cândido de Castro
FEVEREIRO/2001