É natural que esteja me referindo à Igreja Católica porque as demais igrejas não usam a expressão clero para designar seus pastores.
Com freqüência, oiço pessoas reclamarem e dizerem que abandonaram a igreja porque padre fulano agiu mal e deu mau exemplo. Tal questionamento, com certeza, revela falta de personalidade e desinformação sobre esta matéria. É necessário distinguir igreja de clero. Preterindo outros sentidos que possa ter a palavra igreja, nós nos fixamos apenas naquele que vem ao caso. Igreja, num sentido religioso amplo, significa a assembléia universal dos fieis, unidos pela mesma fé em Cristo, participando dos mesmos ritos e sacramentos sob a obediência de uma mesma autoridade emanada de Cristo. Neste sentido é, pois uma instituição divina, cuja doutrina é infalível, isto é, não pode conter erros. É eterna como eterna e definitiva é a palavra de Deus.
Rejeitar esta doutrina constitui um ato de apostasia porque significa a exclusão do próprio Deus de nossas vidas. Religiosamente entendido este é o maior pecado que um ser humano pode cometer. Foi este o pecado de Adão que trocou Deus pela satisfação mesquinha de seu orgulho. Foi tão grave este pecado que, para alcançar seu perdão, foi necessário que o Filho de Deus se fizesse homem e derramasse seu sangue para dar ao Pai uma satisfação condigna.
Os clérigos, por sua vez, são meros funcionários temporais de uma instituição divina. Como tais, eles podem errar como de fato erra todo ser humano. O único que está excluído desta possibilidade de errar é o Papa. Isto, somente em matéria de fé, de doutrina e de costumes. Seria um absurdo e até mesmo um caos se o representante de Cristo na terra pudesse errar ao ensinar e interpretar a própria palavra de Deus. Para isto, ele conta com uma assistência especial do Divino Espírito Santo.
Admitido que o clero pode errar, torna-se evidente que não podemos nem devemos fazer de seus erros motivo para rejeitar o que é divino, infalível e eterno. Os sacerdotes são definidos pelo evangelho como destinados a serem o sal da terra e a luz do mundo (Mat.5,13). A função do sal é preservar contra a corrupção, no caso, a dos costumes e a da luz é iluminar, isto é, ensinar a doutrina de Cristo a todos os povos da terra. O sal pode perder sua eficácia, bem como a luz pode apagar-se. A doutrina de Cristo e a palavra de Deus, estas sim, não sofrem defecções de espécie alguma nem se sujeitam aos erros dos pobres mortais.
Esta história, contudo, de assoalhar erros e defeitos do clero para justificar seu afastamento da prática da religião, com freqüência, não passa de um pretexto, mero pretexto, para ocultar as verdadeiras razões de atos inconfessáveis. Henrique VIII, da Inglaterra, incompatibilizou-se com o Papa e rompeu com a Igreja. Qual a razão verdadeira deste seu erro? É que ele queria separar-se de sua legítima esposa para juntar-se com Ana Bolena. Viveu sucessivamente com seis mulheres, das quais mandou enforcar duas: Ana Bolena e Catarina Howvard. De quem foi o erro, de Henrique ou do Papa? Herodes mandou degolar João Batista porque João lhe disse que não lhe era lícito viver com a mulher de seu irmão. A razão verdadeira era Herodíades, mas o pretexto foi a palavra dada de que faria tudo o que sua filha dançarina lhe pedisse.
O que há de Henriques e de Herodes por aí que brigaram com os padres e se afastaram da Igreja por causa de mulheres é difícil de se contabilizar. Que fiquem com todas as mulheres do mundo, mas não transformem seus erros em critério de verdade.
Religião é, antes de tudo, uma questão de relacionamento pessoal meu com Deus cuja palavra é suficientemente conhecida por todos. Erro de ninguém pode servir de desculpas para renegar a fé em Deus, mesmo porque, na hora do ajuste final, eu tenho que prestar contas a Deus e não ao clero.
É claro que o clero, mais do que ninguém tem o dever de dar bons exemplos e pregar mais com sua conduta do que com suas palavras. Nem por isto perde sua condição de ser falível e pecador. Só que tem de ser menos pecador do que os demais mortais pela maior formação que tem e pelo compromisso que assumiu de ser o sal da terra e a luz do mundo.
Em outras épocas, a figura do padre se destacava pela prática muito acentuada das virtudes características do sacerdote e por isto era identificado com a própria religião. Hoje, infelizmente, alguns se preocupam mais em envolver-se com questões alheias ao seu ministério, sendo, por isto, identificados com os políticos, com as lideranças de movimentos de caráter reivindicatório e polêmico, de cunho meramente material e temporal. Com tal atitude acabam por tomar partido e por desagradar os que estão do outro lado.
O sacerdote não pode tomar partido, mas estar à disposição e serviço de todos indistintamente, como, aliás, fez e ensinou Jesus Cristo que atendia com a mesma solicitude, os ricos, os pobres, os pecadores, os enfermos e aos que tinham fome e sede de justiça. O mundo nunca precisou tanto de sal e de luz como agora, o que vale dizer que, nunca foi tão importante a presença e a ação sacerdotal para orientar o povo de Deus neste momento de sua história em que caminha a largos passos para a consumação de sua passagem sobre a terra. Que a conduta menos reta de algum mensageiro do evangelho não sirva de pretexto para estimular a conduta daqueles que pactuaram com o erro. É o que esperamos e desejamos. Sal e luz para que nossos inquietos corações não se deixem corromper pela fascinação das vulgaridades nem se percam em meio ao apagão da luz das consciências.
José Cândido de Castro
JUNHO/2001