Com o surgir da nova era da comunicação, brilhou no horizonte da humanidade a esperança de que algo de importante começava a interferir no relacionamento humano como fator de progresso, de maior harmonia e avanço no esforço de se fazer do homem um ser cada vez mais feliz e realizado. Qual não foi , contudo, nossa desilusão ao constatar que, apoiada na mais requintada técnica, a imagem colorida, tanto a projetada no vídeo como a impressa em papel, se transformou num poderoso instrumento de desagregação e corrupção.
O pior é que, precisamente, a família foi a mais atingida, constituindo-se em vítima maior dessa poluição, naquilo que ela tem de mais significativo como fonte de vida e manancial das virtudes que exornam a figura do cidadão e do homem, que sempre lutou para acrescentar ao arcabouço de sua estrutura básica algo que o aproximasse mais do modelo plasmado pelo autor da natureza.
Enquadrada nessa nova concepção de família, a figura modelar do pai, da mãe, do mestre e do educador, foi, pouco a pouco, sendo eclipsada e substituída pela do artista, dos apresentadores de programas que se alvoraram em novos mestres, intérpretes, todos eles, da concepção hedonística da vida, que fixa no prazer o valor máximo de nossa existência.
Gradativamente, esta figura eclipsante, antípoda dos valores que sempre nortearam o relacionamento entre pais e filhos, entre mestre e discípulo, acabou por delinear uma nova imagem de pai e de mestre que, com toda a facilidade, sem limite de tempo, simultaneamente, no País inteiro, invade nossos lares e despeja toneladas de lixo sonoro e visual nos ouvidos e nos olhos de nossos adolescentes.
Os pais assistem, perplexos, a estes assaltos que arrancam do coração dos filhos tudo o que eles plantaram de bom e positivo na linha do bem. Os mestres se envergonham da desenvoltura com que se polui a linguagem e se promove a ignorância.
As telenovelas se constituíram na mais funesta máquina de desintegração da família. Nelas prega-se o amor livre, ensina-se o relacionamento sexual precoce entre adolescentes, desrespeita-se o pudor, ridiculariza-se o matrimonia como instituição estável, questionam-se os valores morais e religiosos, quando não se os negam pura e simplesmente. O prazer é sempre exaltado como valor supremo da vida. Seus autores justificam este produto doentio de suas mentes como sendo um retrato da realidade em que vivemos, como se tudo o que é real deva ser necessariamente certo. Como se não bastassem as telenovelas, multiplicam-se os grupos de toda a espécie que têm de comum a ignorância que os caracteriza em matéria de moral, de costumes e de religião. Com o maior cinismo posicionam-se frente às câmeras de televisão para discutir temas da mais alta relevância, acessíveis tão somente a especialistas de cada ramo. Afirmam petulantemente toda espécie de sandices e as ditam como normas definitivas da moralidade e da conduta humana. Por estes dias tive a oportunidade de acompanhar um destes debates, transmitido pelo Sistema Brasileiro de Televisão. O prato colocado sobre a mesa redonda era nada menos do que o aborto. Cinco cidadãos, quatro deles de terno e gravata, dizendo-se portadores de carteiras de advogados, e um rapazola em mangas de camisa, vasta cabeleira, que se autoqualificava de artista. Falaram, falaram, cada um querendo parecer mais erudito e mais sábio do que o outro. Na verdade, aquilo parecia mais uma cavaqueira de bêbados em porta de botequim do que um debate sério sobre tema tão relevante como este do aborto. Como não podia deixar de ser, a retumbante conclusão daquele vergonhoso bate-papo foi de que o aborto deve ser legalizado, por se tratar de um fato que não pode continuar sendo ignorado. Maravilha... Se isto fosse verdade, teríamos que legalizar também os seqüestros, os estupros, os assaltos, os assassinatos, os roubos e os crimes de toda espécie que são cometidos diariamente pela simples razão de que são fatos.
O meu leitor precisaria ver com que fúria o rapazola condenava o Papa por ser contra o aborto. O coitado não sabia que não matar é matéria do quinto mandamento da lei de Deus, ditada a Moisés milhares de anos antes do Papa. O mais chocante é que aqueles senhores se haviam declarado radicalmente contrários à pena de morte para os autores dos crimes hediondos que envergonham e assolam a humanidade. Para crianças inocentes e indefesas, contudo, estes ébrios defendem a pena de morte. São hipócritas, incoerentes, levianos, dignos de nojo, além de covardes. O aborto é um crime de homicídio como qualquer outro, e, sob certos aspectos, ainda mais hediondo e covarde porque praticado contra crianças inocentes e indefesas, vítimas do egoísmo selvagem de certas mulheres que, do sexo, só visam ao prazer.
Estes são alguns dos inimigos da família, o que vale dizer, inimigos da vida em sua própria fonte. Eles merecem o repúdio da sociedade e a execração de toda a natureza que clama por justiça e respeito às suas leis.
José Cândido de Castro
AGOSTO/2000
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