JOÃO PAULO II À LUZ DA ESCATOLOGIA

A presença de João Paulo II durante os vinte e seis anos de seu pontificado, sem dúvida, se constitui num dos maiores eventos da história do Cristianismo.

  Jesus Cristo, antes de subir aos céus, reuniu seus discípulos e lhes confiou aquela transcendental missão: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova do Evangelho a todas as nações”. (Mar.16.15). A segunda vinda de Cristo está condicionada à plena divulgação da doutrina cristã e somente depois que todos os seres humanos tiverem tomado conhecimento da mensagem evangélica é que Ele virá para julgar os vivos e os mortos e concluir o projeto humano que ainda se encontra em aberto. Só então eles verão o Filho do Homem vindo numa nuvem com poderes e glória. Ora, depois de João Paulo II, ninguém mais poderá alegar que nunca ouviu falar da Boa Nova Messiânica. Ele saiu pelo mundo inteiro de encontro a todas as ovelhas, dedicando especial cuidado àquelas que ainda não haviam ouvido a voz do Pastor. Os primeiros discípulos receberam por missão evangelizar todos os povos. No entanto, por motivo de limitação quanto ao pequeno número de evangelizadores, apenas 12, no ínicio e, dado à precariedade dos meios de transporte e de comunicação social, eles se distinguiram como desbravadores e como semeadores da palavra de Deus. A colheita plena seria feita por muitos outros no decorrer dos tempos. São Mateus dedica o capítulo décimo de seu evangelho a transmitir as normas traçadas pelo Mestre para serem observadas pelos mensageiros da salvação. Chamou-os à parte e lhes deu poder para expulsar os espíritos maus e para curar qualquer tipo de doença ou enfermidade. Vão primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel. Vão e anunciem que o reino de Deus está próximo. Curem os doentes, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. O que vocês receberem de graça dêem também de graça. Não levem nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre, nem sacola para o caminho, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão porque o operário tem direito ao seu alimento. Em qualquer povoado ou cidade onde vocês entrarem, informem-se para saber se há alguém que é digno. E aí permaneçam até vocês se retirarem. Ao entrarem na casa, façam a saudação. Se a casa for digna desça sobre ela a vossa paz, se não for digna que a paz volte para vocês. Se alguém não os receber bem e não escutar a palavra de vocês, ao sair dessa casa e dessa cidade, sacudam sobre elas a poeira de vossas sandálias. Eis que envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Não tenham medo deles, pois não há nada de escondido que não venha a ser revelado e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido. O que digo a vocês na escuridão, repitam à luz do dia e o que vocês escutam em segredo, proclamem sobre os telhados.

Dentre estas recomendações do Mestre, João Paulo II se destacou em duas. Primeiro como ele mesmo disse, não teve medo de revelar e sustentar a palavra de Deus perante os lobos, principalmente face ao lobo vermelho do materialismo ateu que tentou proclamar o primado da matéria e do pragmatismo das ações humanas. Em segundo lugar Ele realizou em sua plenitude o “praedicate super tecta” pregai sobre os telhados. Sua palavra, transportada pelas asas das ondas hertzianas, levou aos últimos confins de nosso planeta a mensagem evangélica e cumpriu o mandado do Senhor Jesus: pregai a todos os povos. Inserida nesta realidade está a expectativa de que, cada vez mais, se aproxima a segunda vinda do Messias, desta vez, para conferir o comportamento do ser humano perante o mistério da redenção. Ele veio para salvar a todos, mas nem todos captaram o conteúdo desta mensagem, ou melhor, nem todos, souberam interpretar corretamente a relação entre salvação e uso da liberdade. Não basta Deus querer salvar-nos. É preciso que aceitemos e vivamos esta divina vontade. O tempo passa e a eternidade se aproxima cada vez mais. Eternidade significa a fixação do último instante de nossas vidas, a parada definitiva dos ponteiros que apontam para o fim. Relógio andando é tempo, relógio parado é eternidade. Tais como formos encontrados na parada do cronômetro, seremos julgados e fixados para efeito de prêmio ou de castigo. Se estivermos identificados com a prática do bem, ouviremos o convite: Vinde benditos de meu Pai possuir o reino que lhes foi preparado. Se, ao contrário, a prática do mal tiver sido nossa escolha, será respeitada nossa liberdade: Ide malditos para o fogo eterno. Tudo depende de minha escolha. São relativamente poucos os que levam a sério esta questão da liberdade. Deus não rejeita nem condena quem quer que seja. Nós é que nos condenamos rejeitando Deus e sua graça salvadora. Ninguém poderá alimentar a ilusão de que algum dos Papas promoverá, um dia, abertura para afrouxar a doutrina da fé que se radica na palavra de Deus, tão eterna e tão imutável quanto Ele. A missão dos Papas, como representantes de Cristo na Terra, consiste precisamente em preservar a integridade da fé tal como está expressa nos dez mandamentos. Nenhum deles recebeu ou receberá de Deus autoridade para alterar o que foi estabelecido pela suprema autoridade do Criador.

Pela ação pastoral de João Paulo II é-nos permitido admitir que o Cristianismo atingiu um grau avançadíssimo em sua divulgação e por isto nos situa bem próximos da segunda vinda de Cristo que depende apenas de tempo suficiente para que a criatura humana conheça a verdade e perante a mesma descida conscientemente seu eterno destino. Nossa vida na terra é uma etapa de recuperação que, como tal, é passageira e nos leva de encontro ao definitivo, temporariamente, interrompido pela insensatez do primeiro homem. Temos, pois, bons motivos para aceitar que João Paulo II nos coloca em horizontes muito próximos da parúsia por ter levado a todos os povos da terra a mensagem messiânica.

José Cândido de Castro

MAIO/2005

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Prof. José Cândido de  Castro
Filósofo e Humanista
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