A vida do homem sobre a terra é complicada. Poucos, contudo, sabem o que faz de nossa vida uma complicação. Deus fez tudo certinho. A natureza é um verdadeiro relógio de precisão no exercício de suas leis. Não podem, portanto, serem responsabilizados pelos desarranjos e acidentes de percurso que atribulam nossa caminhada pelo tempo. Temos que procurar e encontrar no próprio homem as razões de nosso penar.
Há uma palavrinha que explica e responde por tudo. O grande equívoco da vida do homem sobre a terra chama-se LIBERDADE. E o foi desde o começo quando o primeiro homem confundiu com liberdade o que não passou de uma grave desobediência à lei de Deus. Uma enorme parcela da população não tem uma noção exata do que significa esta palavra. Isto, porque são poucos, muito poucos os que se dedicam ao estudo da filosofia e das ciências exatas. Tentaremos condensar, da maneira mais acessível possível, o conceito de liberdade. Poderemos focalizá-lo sob dois aspectos: quanto à sua essência e quanto ao seu exercício. Psicologicamente ou metafisicamente, na sua essência, a liberdade é uma faculdade exclusiva do ser racional que lhe confere o poder de autodeterminação face à multiplicidade de alternativas, de opções que se lhe oferecem em situações concretas. É pois, a capacidade que tem o ser racional de optar, de escolher. Por isto dizemos que é faculdade exclusiva do ser racional. O mundo infra-humano não tem liberdade. O animal, o cachorro, por exemplo, percebe um pedaço de carne sob um único aspecto, aquilo que pode saciar sua fome. É levado por esta percepção a tomar a carne para devora-la. O João de Barro, o pássaro arquiteto, constrói sua casinha com muito charme, mas nunca lhe ocorreu erguer um arranha-céu para alugar apartamentos a terceiros com o objetivo de obter renda. Já o homem não. Ele vê no pedaço de carne ou na casa uma série de outras opções além das percebidas pelos irracionais, inclusive a venda com o objetivo de ganhar dinheiro. Portanto, a liberdade, como faculdade ou potência, é ilimitada na sua capacidade de escolher. Já quanto ao exercício ou prática as coisas mudam porque ela sofre limitações impostas pela lei e pelos direitos dos outros. Em suma, o indivíduo pode fazer tudo o que não é proibido pela lei, divina, natural ou humana ou que não vá contra os direitos de outrem. No sentido moral, a liberdade é a condição de um ser imune de qualquer coerção que o impeça de tender, através de seus atos, à realização cada vez mais perfeita de sua natureza. Neste sentido, só Deus é plenamente livre, porque só Deus é perfeitamente aquilo que é; só Deus realiza, sem nenhuma limitação, a plenitude de sua própria essência. A liberdade psicológica, também chamada de livre arbítrio, é apenas um meio para atingir esta liberdade moral, e um meio, de resto, ambíguo. Bem utilizado, liberta. Mal utilizado, escraviza. Para dar um exemplo, o homem que abusa do álcool, cada vez que se embriaga faz a afirmação de sua liberdade psicológica, enquanto multiplica os atos pelos quais se determina a beber. Com isto, entretanto, vai se tornando escravo do vício, isto é, vai perdendo sua liberdade moral. A liberdade, portanto, é um risco e uma conquista. É risco enquanto, pelo seu próprio indeterminismo, deixa ao homem, não só a glória de optar pelo bem voluntariamente, mas também o tremendo poder de optar pelo mal. É conquista enquanto exige do homem um esforço contínuo de luta contra todas as forças internas e externas que comprometem a realização de sua plenitude. A liberdade é o maior dom de Deus ao homem porque é a fonte do merecimento. Por seu correto exercício pode conquistar todos os bens que a vida nos oferece. Em contrapartida, o mau uso da liberdade pode deitar tudo a perder. O mal, por sua própria natureza, não pode ser objeto de escolha ainda que fisicamente, eu possa praticar um ato contrário à minha consciência e às leis que o proíbem. Logo, moralmente, não há liberdade de escolha entre o mal e o bem. Na linha do bem, posso optar por todos aqueles que mais me conduzam a realizar em mim a imagem e semelhança de Deus que é plenamente livre, mas que também não pode praticar o mal por ser contrário à essência de sua divina perfeição. Liberdade é sinônimo de perfeição absoluta para Deus e relativa para a criatura.
Este vai ser o divisor de águas na terceira e última etapa da vida do homem sobre a terra. Os que, no tempo da grande chance a todos concedida para entenderem o erro cometido pelo primeiro homem e pautarem suas vidas pelas normas e prática do bem, reconquistarão a terra na sua primitiva forma de paraíso. Os outros que preferirem continuar admitindo que Deus não está com nada e veio com aquela história de maçã apenas para impedir que o homem fosse igual a Ele, serão definitivamente rejeitados, a modo dos anjos rebeldes, e confirmados, para sempre, neste estado de rejeição e de frustração da própria natureza planejada e voltada para a felicidade. Meus amigos, esta questão de liberdade é coisa muito séria, a mais importante e comprometedora da vida porque nos faz oscilar entre o abismo e a glória. Uma resvalada no exercício deste alpinismo será fatal, quer queiramos, quer não. Mérito ou demérito, eis a questão cuja solução depende exclusivamente do homem. Deus é coerente e respeita a liberdade do ser que Ele criou livre e a quem ensinou a exercer corretamente, como criatura, uma faculdade que poderá converter-se em espada de dois gumes.
José Cândido de Castro
FEVEREIRO/2001