No entender da psicologia, o medo é uma doença psíquica, da alma, que domina a mente e acaba por predispor e afetar todo o organismo facilitando o surgimento das mais variadas enfermidades, ou por outras, transforma o que não vai além de mera imaginação ou simples possibilidade em realidade. Configura-se na arte de transplantar uma realidade adversa existente em outra pessoa, ou, outro lugar, para o próprio organismo. Assemelha-se a uma técnica projetiva, método de estudo da personalidade, onde o indivíduo é confrontado com uma situação e responde de acordo com o sentido do que a mesma representa para ele e conforme o sente no decorrer da resposta. O medo tem suas raízes na limitação da capacidade do conhecimento do ser humano. Se tivéssemos o poder de intuir, com clareza, o futuro, não estaríamos sujeitos ao medo porque caminharíamos, passo a passo, com a realidade e não seriamos pegos de surpresa nem estaríamos à mercê dos sentimentos de inquietação, de apreensão, de incerteza, de angústia e de estresse produzidos pelo temor. Permitimos, com esta atitude, que nossa mente se converta num celeiro de idéias negativas e, sofremos por antecipação. A verdade é que o ser humano tem medo de tudo ou de quase tudo.
As doenças, principalmente, as mais fatais, lideram rol de nossas preocupações. Vem, em seguida, o medo da morte, da violência, dos acidentes e da vida futura, verdadeira interrogação para os que não apóiam o edifício da vida presente no alicerce da fé na palavra de Deus. O rico tem receio de ficar pobre e, por isto, se entrega a toda a espécie de práticas, as mais arriscadas, para evitar que isto aconteça, mas que o atormentam e criam conflitos com sua consciência, além do fantasma, sempre presente, de que poderá vir a perder tudo. O pobre, com maior razão, se apavora com a idéia de que a miséria poderá abater sobre ele, vive a angústia de poder chegar ao ponto de não possuir, nem mesmo o necessário para matar a fome. Nesta faixa vive noventa e cinco por cento da população brasileira e, é por isto, que a maioria sofre de inquietação à busca de novos horizontes. O único que nada teme é o miserável porque não tem o que perder. Não receia nem mesmo a morte porque morrer, para ele, é um bom negócio. Na verdade, o medo se identifica com o receio de perder alguma coisa. Por isto, os únicos verdadeiramente felizes deste mundo são os que, ainda que possuam, a nada se apegam. O medo vem sempre do apego às coisas materiais e cria a infelicidade. É por isto que as Sagradas Escrituras (Mt, 5.3) advertem que os verdadeiramente felizes são os desapegados porque possuirão o reino dos céus, ou seja, as riquezas verdadeiramente imperecíveis. Os pobres e assalariados o que mais temem é o desemprego ou a possibilidade de perderem a oportunidade de continuar trabalhando. É principalmente a eles que se dirige o Pai do Céu em São Mateus (6.25) quando lhes pondera: “É por isto que lhes digo, não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa? Olhem os pássaros do céu: eles não semeiam, não colhem, nem ajuntam em armazéns. No entanto, o Pai que está nos céus os alimenta. Será que vocês não valem mais do que os pássaros? Quem de vocês pode crescer um centímetro a custa de se preocupar com isto? E porque vocês ficam preocupados com a roupa? Olhem como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Eu, porém, lhes digo: nem o rei Salomão, em toda sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus assim veste a erva do campo que hoje existe e amanhã é queimada no forno, muito mais Ele fará por vocês, gente e pouca fé!” Afinal, foi este mesmo Pai do céu que nos mandou comer o pão com o suor de nosso rosto. Se assim é, Ele não permitirá que nos falte o trabalho.
Muitos, apesar de tudo, temem a velhice e a morte. Estas, contudo, são realidades inevitáveis. Porque, então, preocupar-se com o que é inevitável? Ocupe-se com as coisas evitáveis e já terá bastante o que fazer.
Ao tecer estas considerações sobre o medo tivemos por objetivo encontrar uma fórmula que acabe, ou pelo menos, diminua o que tanto sofrimento acarreta para nossas vidas. Parece que a sintetizamos na confiança em Deus conjugada com o trabalho. Desconheço uma terapia mais eficaz do que o trabalho para manter nossas mentes longe do fantasma do medo. E lembre-se de que foi o próprio Deus que nos sugeriu esta fórmula e, por isto, nunca permitirá que nos falte o trabalho se n'Ele confiarmos. Como diversão e descanso do trabalho sugiro a pesca. A tranqüilidade das águas, o sopro acariciante da brisa e a expectativa de fisgar um destes que não plantam nem colhem, empurram para longe os miasmas da mente. Quando o Mestre decidiu matar a fome das multidões, não multiplicou bois, mas peixes. Quem tem um anzol e um caniço não passa fome e ainda se diverte como fazia Pedro e seus companheiros.
Ao morrer, gostaria de apertar com a mão direita o crucifixo, símbolo de minha fé naquele que é tudo para mim e ter na mão esquerda uma vara de pescar, imagem da tranqüilidade dos que confiam no trabalho honesto e na promessa do Pai que tudo criou e providenciou para que fossemos felizes e não tivéssemos medo.
Com muita fé e com muitos peixes chegaremos lá, lá onde nos espera o maior e o melhor dos Pais.
José Cândido de Castro
JANEIRO 2005