O novo filme, recentemente lançado nas telas dos cinemas, visivelmente contribui para reviver e atualizar o milenar e apaixonante tema da Paixão de Cristo. Talvez seja, e com razão, o mais focalizado episódio da história humana porque ele se fixa no centro da mesma e a divide ao meio. De um lado, o velho Adão, por seu pecado, o primeiro responsável pela Paixão de Cristo, e do outro, o novo Adão, que veio para restabelecer a ordem e dar prosseguimento ao primitivo projeto do Criador. Por ser tão apaixonante e por atingir o cerne de nosso destino, o tema desperta comentários, suscita debates e chega à conclusões nem sempre condizentes com a realidade e com a verdade histórica. Cumpre-nos, portanto, se pretendermos evitar divagações e corrermos atrás de quimeras, manter-nos rigorosamente fieis à narrativa evangélica.
A primeira questão que se coloca sobre a mesa dos debates é esta: Quem é o culpado ou foi o responsável pela cruel morte imposta ao Cristo Senhor nosso? Faz-se mister distinguir entre o causador e o executor do crime afim de que a resposta seja abrangente e convincente. O causador deste crime foi Adão com seu pecado e nele, todos os seres humanos como descendentes seus que somos. É o pecado de origem, ou original, como é conhecido na terminologia cristã. Este pecado se apaga pelo batismo em virtude dos méritos obtidos pela Paixão e Morte de Cristo.
Como executores deste crime aparecem nitidamente três grupos de pessoas ou classes sociais em que se dividia o mundo daquele tempo. Os responsáveis intelectuais, os mandantes, os forjadores que assumiram perante o povo a responsabilidade de exigirem a crucificação de Cristo, sem sombra de dúvida, foram as autoridades religiosas representantes da religião judaica. Os Sumos Pontífices, Anaz e Caifaz, bem como o Sinédrio, composto de setenta e um membros e integrado por sacerdotes, anciãos, escribas ou doutores da lei. O Sinédrio era o Tribunal Supremo (criminal, político e religioso) e sua influência se estendia sobre todos os judeus, mesmo sobre os que viviam fora da Palestina. Há de se observar, com muita cautela, que a religião judaica daquele tempo não era a religião cristã, ao contrário, sempre se revelou anticristã pela permanente atitude hostil de seus dirigentes contra Jesus Cristo. Resta-nos saber o porquê desta hostilidade. A razão era patente. As autoridades judaicas daquele tempo esperavam pela vinda de um Messias político que libertasse os judeus do jugo romano. Ora bem, Jesus se apresentou como um líder religioso, enviado do Pai para libertar o homem do pecado e restabelecer o equilíbrio no relacionamento entre Deus e o homem que passava da inimizade para o amor. Tal discurso, contudo, em nada agradava aos membros do Sinédrio que enxergavam nele uma funesta ameaça à sua permanência nos postos despoticamente por eles ocupados e aos quais não estavam nada dispostos a renunciar. Os doutores da lei sabiam, muito bem, pelas Sagradas Escrituras, a que veio o Messias, isto é, para assumir a posição de autoridade religiosa máxima perante o Pai e os homens. Prevaleceu a visão política de um Messias libertador de interesses temporais e materiais como também a ambição de um poder meramente político. Donde a deliberação do Sinédrio de afastar definitivamente de seus caminhos a indesejável e ameaçadora figura do Messias religioso, portador de uma mensagem inteiramente oposta à visão do farisaísmo dominante. Assim o fizeram com crueldade e ignomínia, assumindo a responsabilidade daquele crucifica-O, crucifica-O. Inspirado nesta crueldade formou-se o vocábulo “judiar” que, em português, significa maltratar com ódio até à morte. O povo judeu havia sido eleito e escolhido por Deus para gerar e receber o Messias, mas, este mesmo povo O rejeitou e crucificou. No Evangelho de São João (1.10) está inequivocamente expresso: “A palavra estava no mundo, o mundo foi feito por meio dela, mas o mundo não A conheceu. Ele veio para sua casa, mas os seus não O receberam”.
Não faz, portanto, o menor sentido a afirmativa do Rabino, representante da religião judaica no Brasil, quando, num destes debates sobre o filme, acentua que o mesmo não passa de uma discriminação contra a nação Judaica que não corresponde à verdade histórica. Admito até que, hoje, nem as autoridades religiosas nem a nação judaica cometeriam tal crime. Acredito que qualquer um de nós, com os conhecimentos e a visão clara que temos, hoje, dos fatos, não admitiríamos que Adão praticasse a insanidade que cometeu e que os soldados romanos, impunemente e, sem resistência, pusessem em prática o que a plebe exigia. A narrativa bíblica não deixa dúvidas sobre a responsabilidade dos Judeus como mandantes e autores intelectuais deste crime que envergonhou e cobriu de opróbrio a natureza em luto.
Pilatos, governador e preposto do Imperador Romano, se constituiu em segundo elemento na prática e na execução de tão hediondo crime. Pecou duplamente. Primeiro, porque tendo reconhecido que Cristo era inocente, o mandou castigar com açoites e coroa de espinhos e, segundo, por covardia e ambição pelo cargo que exercia. Ele tinha poderes para impedir que Cristo fosse crucificado, mas omitiu-se covardemente com aquele gesto hipócrita de lavar as mãos dizendo-se inocente no derramamento do sangue daquele justo. O importante era garantir seu cargo e evitar criar complicações com sua majestade o Imperador de Roma. Este INRI que anda por aí se enfeitando de messias que se cuide porque há muitos Pilatos pelo Brasil de olho na arrecadação do dízimo, o grande negócio que estimula os novos fundadores de igrejas. É uma vergonha, como diria Boris Casoy.
Herodes, o fútil e devasso rei Herodes, teve sua parcela de responsabilidade ao escarnecer e debochar da figura de Cristo. Ele não gostava de Jesus porque, ao ouvir dizer que em Belém nascera o Rei dos Judeus, procurou mata-lo mandando degolar todas as crianças da região. Era uma ameaça que se erguia contra sua coroa. Além do mais, como se tinha na conta de garanhão do terreiro, enfureceu-se contra Jesus que havia condenado seu casamento com Herodíades, mulher de seu irmão Felipe. Por este mesmo motivo mandou degolar São João Batista a rogo de sua amásia. Ele, antes inimigo de Pilatos, depois se tornou seu amigo em sinal de reconhecimento de seu gesto ao permitir que os judeus crucificassem Jesus.
Resgatada assim a fidelidade à narrativa evangélica, resta-nos acrescentar que o filme retrata, com bastante fidelidade, os acontecimentos. É evidente que, com os modernos recursos da arte e da técnica e uma boa dose de fantasia os fatos assumem a dramaticidade de um espetáculo teatral, o que não condiz com a grandeza daquele gesto divino. Refiro-me, por exemplo, àquele detalhe em que um corvo pousa sobre a cruz do mau ladrão e lhe arranca um olho. Se aconteceu não o sabemos, mas poderia ter acontecido como punição da natureza contra as blasfêmias que eram assacadas contra o Criador por um bandido. Só sei que, se a idéia vingasse, não iriam faltar corvos para devorar a língua dos falsos profetas que fazem da palavra de Deus escudo para justificar sua ganância de catadores de níqueis no bolso da pobreza. A dramaticidade faz parte do espetáculo, mas, nem por isto, esconde o que há de santo, de heróico e de amor do Pai para com sua criatura ao entregar o próprio Filho em holocausto por nossas culpas. No meu entender, o maior sofrimento de Cristo consistiu não em sua dor física, mas na ignomínia e na humilhação de ser colocado abaixo dos piores criminosos da história. Deus Santo, infinitamente Bom ser posposto a Barrabás, encarnação do crime. Isto sim, é holocausto, é aniquilamento, amor, mistério que a infinita limitação de minha mente não é capaz de desvendar. É, contudo, neste mistério que se fixa a âncora de nossa fé. É confiando nele que teremos acesso à Divina Sabedoria.
José Cândido de Castro
ABRIL/2004