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PÃO E PALHAÇOS

Juvenal, poeta latino, autor de Sátiras, disse que o único ideal da plebe romana, em seu tempo, era comida e diversão: “PANEM ET CIRCENSES”, Pão e palhaços. Isto foi dito pouco antes da era cristã, quando o imbatível Império Romano caminhava a largos passos para sua desintegração.

Sempre afirmei, em meus escritos, que a história desenha o gráfico de uma onda acústica, num vai e vem onde se acentuam acertos, mas também se repetem os mesmos erros. É uma espécie de entropia histórica onde tudo se repete e nada se cria de novo. Nada de novo porque a história é escrita pela liberdade do ser humano que é limitada e tem o poder de criar sempre sem nunca repetir. Aquele dito de que a história é a mestra da vida é só para inglês ouvir porque, na verdade, ninguém aprende nada a não ser aquilo que não presta.

É curioso que, recuando aos tempos de Juvenal, deparamos, exatamente, com o que acontece nos dias de hoje. A plebe quer PÃO e FARRA. Tanto é verdade que o presidente eleito declarou, enfaticamente, que o epicentro de seus governos situar-se-á na luta por comida e no afã de promover aulas de guitarra como estratégia de combate à violência. Só que nem só de pão e barulho vive o homem, mas de toda a palavra que vem de Deus, no dizer do Deuteronômio. É por isto que esta orgia da vida presente recende à hecatombe, como aquela do Império Romano, porque comida e folia pouco ou nada representam para quem pretende continuar se definindo ANIMAL RACIONAL.

Todos os grandes homens que foram testemunhas oculares da derrocada do Império Romano são unânimes em acentuar sua preocupação com a ocorrência de tais fatos. Também o grande filósofo Cícero exclamou assustado: “Tempora! O mores!, que tempos, que costumes, em alusão à decadência moral dos romanos.

E Cícero, como os demais sábios de seu tempo eram pagãos. E nós cristãos, onde nos situaremos nesta questão? Será que teremos que nos recuarmos para aquém do paganismo para buscarmos nossa identidade histórica? Com o estômago cheio e a cabeça vazia o mais que poderíamos lograr seria uma indigestão gástrica seguida de esclerose cerebral sem retorno. Será mesmo que o novo presidente está convencido de que corpos bem alimentados seriam o suficiente para evitar a desintegração da família, a crise moral e religiosa que devasta os costumes, a violência que significa exatamente a morte do espírito e o apagão do racional? A fome do corpo é efeito e não causa da outra verdadeira fome, a da justiça. Os que têm fome de sede de justiça é que precisam ser saciados. O mais virá por acréscimo. A folia agitada pela guitarra, pelo erotismo das danças, pelo estrondo da fanfarra não só não acaba com a violência, mas representa mais lenha na fornalha, soprada pelo fole de uma crescente alienação e arrastada pela fúria do tornado que devasta tudo o que encontra pela frente. “Non in commotione, Dominus”. Deus não se encontra no meio do barulho, diz o terceiro livro dos Reis, mas no recesso dos corações tranqüilos. 

Aliás, do novo presidente, adepto que é da filosofia materialista de Marx, não se poderia esperar outra atitude senão esta. O objetivo é transformar o Brasil numa enorme granja de suínos onde se coma o dia inteiro, se beba, se durma, se engorde e, principalmente, se alcance o peso ideal para o abate, objetivo final de toda esta engorda.

Não julgue meu prezado leitor que eu seja partidário do faquirismo. Eu apenas me posiciono ao lado do equilíbrio do “mens sana in corpore sano”, uma mente sadia unida a um corpo igualmente saudável. “Haec oportet facere et illa non omittere”. É preciso cuidar de ambos dentro da escala de valores estabelecida pela essência metafísica do ser humano. No Brasil, as políticas pendem claramente para a matéria, e mais que as políticas, são os fatos, as ações, os discursos que apontam para esta realidade. Quem prestou atenção nas falas dos candidatos durante a campanha política sabe o que está por vir.

Todas as questões relacionadas com a cultura, com o desenvolvimento espiritual e humano são tratadas de maneira acanhada, quase que por redundância. Não adianta fazer de conta que tudo começa aqui e aqui mesmo acaba ou bancar a avestruz que esconde a cabeça na relva fingindo não perceber a realidade que a ameaça. Precisamos injetar em nossas vidas uma forte dose de escatologia, de poderosas lentes que nos permitam enxergar além da vidraça opaca das cataratas que ofuscam nossas retinas e as impedem de atingir a visão exata da realidade.

O filósofo francês Descartes, com seu famoso axioma: “Cogito, ergo sum”, situa no pensamento a característica principal do ser humano. É no pensar, no refletir, no intuir, no devassar o além que afirmamos nossa prerrogativa de ser que pairamos acima da obesidade de uma matéria que se desfaz algumas horas depois de se separar do espírito.

O Profeta Jeremias (12, 11) adverte que toda a terra esta submersa na desolação porque não há ninguém que pense. Pensar, pensar, tornar a pensar, eis a receita para quem queira salvar-se a si e o Brasil.

José Cândido de Castro

NOVEMBRO/2002


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Prof. José Cândido de  Castro
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