ESTÔMAGO CHEIO, CABEÇA VAZIA

Em matéria por nós recentemente publicada fazíamos alusão aos rumos apontados para as ações do novo governo. Prioridade absoluta, radicalização na erradicação da fome do corpo. Evidentemente, não posso nem devo condenar qualquer tipo de esforço que se faça para partir e repartir o pão que sacia a fome das multidões. Meu questionamento incide sobre a metodologia, sobre a ordem dos valores proposta para tais ações.

Jesus Cristo, para resolver o problema da fome da multidão que o seguia teve que lançar mão de seu poder de fazer milagres. E o fato se deu exatamente quando todo aquele povo acaba de saciar sua fome de justiça e de verdade com o pão haurido dos ensinamentos da palavra do Mestre. O erro, portanto, está, não em procurar satisfazer a fome do corpo, mas na inversão dos valores. Jesus, primeiro satisfez a fome do espírito, depois providenciou o pão para o corpo. Não consta que o novo governante tenha poderes para fazer milagres, antes, sabemos que é fervoroso adepto da filosofia materialista e ateia de Carlos Marx. Fica então, lançada a operação TANAJURA, aquela do abdômen obeso e cabeça raquítica.

O combate à pobreza material, para que surta algum efeito, está sujeito a uma série de fatores sem os quais não se chega a lugar algum. A grande norma é aquela que São Mateus aponta em seu evangelho (6,33) “Procurai primeiro o reino de Deus e sua justiça e o mais virá por acréscimo”. Cabe aqui, e com muita propriedade, a pergunta: Quais de nossos governantes se preocupam com o reino de Deus e sua justiça? Não só não se preocupam, mas ainda praticam o mais crasso materialismo apoiado no ateísmo prático daqueles “quorum deus venter est” cujo deus é o próprio ventre, no dizer do Apóstolo aos Filipenses (3,19). Não nos esqueçamos de que a famigerada república sindicalista, finalmente, chegou ao poder, água mole em pedra dura... agora com todas as chances de colher a safrinha da implodida teoria de Carlos Marx, ateia, materialista e desumana. A norma de, primeiro o reino de Deus, aparece com mais força e ênfase no salmo 127. “ Se Deus não construir a casa, em vão labutarão aqueles que tentam edificá-la”. Com efeito, nossos governantes nada conseguirão com suas pretensões de encher o estomago do povo se suas cabeças e seus corações continuarem vazios de Deus. No caso, a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Primeiro o reino de Deus, depois o demais e não o demais e depois o reino de Deus. O demais é colocado em primeiro plano porque Deus foi banido da consciência que buscam na matéria a razão última do ser humano. O rei Salomão pediu a Deus sabedoria e coração reto para poder governar, com acerto o povo de Deus. Todos nós somos o povo de Deus, só que nossos governantes nada tem a ver com Salomão, antes, são sua negação. Não há outro caminho para se chegar à solução da angústia em que vive nossa gente, gente faminta e sedenta de justiça e verdade senão na inversão da ordem dos fatores. Primeiro Deus, sua justiça, coração repleto de sentimentos humanos e , por acréscimo, o pão que anima o corpo. Comenta-se que vão colocar à frente da campanha contra a fome, um Bispo. Até parece que vivemos na era de Juliano, o apóstata. A missão do episcopado é distribuir o pão da palavra de Deus e não administrar a distribuição de cestas básicas. Não falta que se deixe seduzir pelo canto da sereia materialista. Pregar o evangelho a todos os povos, eis a questão que deve empolgar 0s escolhidos. Mas até mesmo entre os doze eleitos houve quem preferiu trocar sua missão por trinta moedas.

Para quem não crê na outra vida só resta mesmo aquele comamos e bebamos para amanha morrermos com o estômago bem cheio. Comerás o pão com o suor de teu rosto e não com o paternalismo anestesiante de cestas básicas. O que o brasileiro precisa é de trabalho bem remunerado e retorno justo e condigno de uma aposentadoria conquistada com dignidade. De retórica de palanque já estamos saciados.

José Cândido de Castro

DEZEMBRO de 2002


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Prof. José Cândido de  Castro
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