Este nosso querido Brasil revive a era da escravidão, quando o governo, instalado na Casa Grande de seus palácios reencarna a figura do Sinhô, enquanto que o povo, encurralado na senzala de sua pobreza e de seus sofrimentos, reedita a figura do escravo.
O Sinhô governo viajou, passeou, banqueteou-se e dormiu. De madrugada, acordou sacudido por um pesadelo: a energia elétrica acabou. Convoca então o Parente, o Euclides, o Gilmar e outros mais e lhes passa a seguinte ordem: arranjem uma maneira de jogar a culpa para cima dos escravos, quando não o ônus. Precisamos tirar proveito desta crise para arrecadar dinheiro e para encontrar um bode expiatório que, no tronco, sirva de exemplo para o resto. O Sinhô tem que ser preservado.
Daí para diante instalou-se o regime do terror. Ameaças uma em cima da outra. Apagão, sobretaxa, corte de energia, medida provisória para tapar a boca da justiça e para subverter a ordem jurídica com a supressão do Código do Consumidor. E mais. A culpa não é do Sinhô, mas dos escravos que andaram acendendo tochas demais e de São Pedro que não providenciou chuva bastante para minimizar a devastação do meio ambiente. Depois de algum tempo, o Sinhô aparece na televisão, com aqueles ares e sorriso amarelo de quem não acredita nem mesmo naquilo que está falando, para dizer que os escravos foram bonzinhos, quebraram o galho do Sinhô, mas que precisam ter cuidado porque a espada de Dâmocles dos cortes e das sobretaxas continua apontada para a cabeça dos que não observarem as metas. Mandou confeccionar uma caixinha para guardar a arrecadação das sobretaxas e criou um fundo para cobrir gastos não sei com que. Tenho horror destes fundos porque eles são furados, não tem fundo. O certo é que nenhum consumidor de energia sentirá sequer o cheiro deste dinheiro. Provavelmente, irão à senzala entregar ao Nego Velho uns dois mirreis para ele comprar balinhas e provar que o Sinhô cumpre sua palavra. Estou dizendo isto baseado na história. Depois de uns vinte anos, estou esperando, até hoje, para receber de volta o empréstimo compulsório que lançaram sobre combustíveis. Tenho guardado todas as notas fiscais de compra. Toda esta zoeira foi aprontada para encobrir algum objetivo escuso. Quem de nós sabe o que, de fato, ocorre nos bastidores da Casa Grande? De que dados dispomos para avaliar a transparência das afirmações do governo? Desde quando escravo tem o direito de saber alguma coisa? Seu destino é apanhar, e apanhar calado. Esta jogada da sobretaxa é profundamente imoral. Imagine meu leitor que o Joaquim é comerciante de sapatos. Vou à sua loja para comprar um par. Ele me responde que não tem sapatos para me vender e que, por isto, eu tenho que lhe pagar uma multa pelo fato de ele não ter o que me vender. A distribuidora de energia não tem eletricidade para vender. Logo, o consumidor vai ter que pagar por um produto que ele não vai consumir. Isto é ou não imoral? Penalizar o consumidor porque o fornecedor, por sua culpa, por sua incompetência administrativa, por sua falta de consciência, não tem o que vender, isto é uma imoralidade, um roubo.
O certo mesmo seria o apagão por ser medida igualitária, se bem que não justa por atingir inocentes. Os escravos sofreriam menos porque já estão acostumados com as velas e as tochas, mas seriam injustiçados porque se há alguém que não tem a menor culpa em tudo isto é o povo. Quem não é culpado não pode ser castigado. É bom que fiquemos prevenidos porque amanhã será o dia da água, do gás, do petróleo e dos alimentos que virão a faltar.
É preciso que, finalmente, o povo acorde e que, fora a violência, use de todos os meios de que dispõe, para proclamar uma nova abolição da escravatura, desta vez, da escravidão econômica e financeira. Cada um procure afiar seu VOTO porque as eleições estão chegando e desta vez não podemos errar. Continuo procurando um príncipe ou uma princesa para assinar a NOVA LEI ÁUREA.
José Cândido de Castro
JUNHO DE 2001