Com a facilidade que nos oferece a TV Senado, temos tido a oportunidade de acompanhar os atos e as atitudes de nossos Senadores. Os oitenta e tantos parlamentares que integram a casa estão divididos em três grupos principais: o dos mudos e invisíveis que jamais são ouvidos nem vistos; o dos que, de vez em quando, dão o ar de sua graça e o daqueles que, de tão atuantes que são, se convertem em vedetes parlamentares. Atuam, quase sempre no exercício do “pro domo sua”, ou seja, na projeção pessoal. Levam a sério os adjetivos de Excelência, ilustre, nobre que lhes são atribuídos. Pavoneiam-se com garridice. Só não podem olhar para os pés porque descobririam a realidade em que se apóiam. Estes ativistas senatoriais estão organizados numa espécie de Confraria de panegiristas, cada qual mais empenhado em produzir peças laudatórias, uns dos outros, ou de personalidades pré-fabricadas cuja trajetória nesta terra consistiu apenas em nascer, vegetar e retornar ao pó de onde vieram sem terem em nada contribuído para o progresso da sociedade. Estamos presenciando a vulgarização daquilo que antes só poderia ser atribuído a um Ruy Barbosa, a um José do Patrocínio ou a um Albert Bruce Sabin. Por falta de autênticos valores exaltamos as vulgaridades.
Recentemente, um Senador, membro da Confraria, subiu à tribuna para produzir um panegírico de um cidadão, que, na contagem dos fatos só produziu demagogia. O orador, embalado pela empolgação da homenagem que julgava estar prestando ao NADA, emocionou-se chorou e só não rasgou o paletó porque é proibido pelo regulamento andar sem ele no recinto do Senado. A certa altura, um confrade solicita um aparte para destacar e elogiar a figura do que estava elogiando. Em resposta ao aparteante, o aparteado aproveita o gancho para tecer uma teia de encômios ao aparteante só pelo fato de o ter elogiado. Num toque de mágica, metamorfosea seu afeto num monstro sagrado de cidadão, aquele mesmo que antes havia sido espinafrado por um dos pares por falta de cidadania. Em poucos minutos o fogo cruzado de elogios toma conta do plenário até que um fiel servidor, naquele instante transformado em bombeiro herói, acode com copos de água mineral, é claro, para apagar o incêndio cívico da nobre Confraria. Enquanto isto, lá fora, o pau quebra e se faz ouvir a lamúria de um povo que clama por emprego, por distribuição justa da renda nacional, por educação, por saúde, por combate à violência, por um infinito item de necessidade. Quando começamos alimentar a esperança de que alguém suba à tribuna para lançar um grito de basta à empolgação da Confraria de panegiristas, levanta-se uma senadora, cheia de trejeitos e cacoetes, ajeitando os cabelos, deslocando os óculos de baixo para cima, a fim de pronunciar um discurso em defesa do feminismo. O que tem a ver o feminismo com a fome de milhões de brasileiros?
Minha Santa Rita dos Impossíveis, quando será que nossos homens e mulheres públicas vão amadurecer e compreender que é urgente tomar consciência de seu dever de justificar, por um trabalho sério e produtivo, as volumosas somas que lhes são pagas com o suado dinheiro do povo?
Estes senhores e senhoras gastam a maioria do tempo que deveria ser destinado ao trabalho, em festas, homenagens, reuniões, conchavos e viagens de todo o tipo. As senadoras, então, estão nadando a braçadas, deslumbradas que estão face à ilusão de que agora o mundo é delas. Resta saber de que mundo estão falando. Seria o mundo dos cosméticos ou do silicone? Frivolidades, eis o produto da massa encefálica do homoide de hoje, ou seja, do mestiço resultante da corruptela da essência metafísica do homem com predominância do animal. Com efeito, na essência do homoide contemporâneo, predomina o animal sobre o racional provocando o mais assustador desequilíbrio em seu comportamento. Dá conta a mitologia que quando Júpiter queria arruinar com alguém, primeiro o enlouquecia. Loucura, alienação, insensatez, temeridade, eis os produtos do cérebro geneticamente alterado pela supressão dos valores de referência. Com a mais deslavada facilidade o homem de hoje mata, rouba, corrompe, estupra, polui e despreza todos os valores do espírito e da razão em troca de dinheiro, do vil metal. Desgraçadamente o conceito de mulher liberada, emancipada, se confunde com a corrida em busca de dinheiro para ter o que gastar na satisfação de todo tipo de prazeres. Pela mulher o pecado entrou na vida do homem quando Eva seduziu Adão levada pela cobiça de ser uma deusa. As candidatas a deusas de hoje andam por aí de maçã desnuda num processo de sedução levado a efeito pela televisão e pelas revistas pornográficas. E os babacas dos Adãos destroncam o queixo e destilam a baba característica dos idiotas. Fica aqui um conselho para você Adão, deslumbrado com o colorido das maçãs, leia o livro dos Provérbios e caia na conta do que vem por aí. Para encerrar vou lhe adiantar apenas o que se encontra no cap.5,3. “Os lábios da estrangeira destilam mel e suas palavras são mais suaves do que o azeite. No final, porém, ela é amarga como fel e afiada como espada de dois gumes. Os pés dela levam para a morte, e seus passos conduzem ao túmulo. Ela não segue o caminho da vida, e suas trilhas se desviam sem que ela perceba”. Em contrapartida, no cap.31-10, você encontrará o retrato da autêntica e verdadeira mulher. Vamos cantar o sucesso do trabalho dela e de suas obras na praça da cidade, na glória da beatificação das Terezas de Calcutá e no repúdio aos ambientes mórbidos dos estúdios de TV e das tribunas ampliadoras de vaidades e ilusões de candidatas a deusas do pó em que se converterão, já, já. Lembra-te de que és pó e que em pó te converterás (Ge.3,19).
José Cândido de Castro
OUTUBRO/2003