A SERPENTE ME ENGANOU
Se você, meu estimado leitor, tiver em mãos uma bíblia, abra-a e venha ler juntamente comigo o que está escrito no versículo treze do capítulo terceiro do livro do Gênese: “A serpente me enganou, e eu comi”. Esta foi precisamente a resposta da primeira mulher quando questionada por Deus sobre o ato de desobediência às ordens do Criador. O primeiro pronunciamento da espécie humana, levado a efeito pelos lábios de Eva, foi para justificar-se, apresentar desculpas e empurrar para cima de outrem a responsabilidade da prática de sua liberdade. Judicioso será fixar-se bem este detalhe porque o primeiro ato livre do ser humano foi praticado precisamente contra o Autor do livre arbítrio. Além do mais, este ato põe em evidência a faceta mais negativa do caráter humano que consiste na tendência de transferir para o outro a responsabilidade de seus atos praticados em nome da própria liberdade. Ser livre é direito sagrado e inalienável do indivíduo, arcar, porém com as responsabilidades oriundas deste direito fica a cargo dos outros. Isto na moderna linguagem é qualificado como IMPUNIDADE, estímulo para a prática de todos os crimes e menina dos olhos dos famigerados defensores dos direitos humanos e inimigos do principio jurídico de que a cada direito corresponde um dever.
Passados milhões de anos, os personagens desta história são hoje absolutamente os mesmos, como idênticos são seus procedimentos. Deus, protagonista e ator principal dos acontecimentos, continua em meio à cena a apontar-nos sempre o caminho reto a seguir e a advertir-nos sobre as desastrosas conseqüências para aqueles que insistem em arriscar no jogo da roleta com total aproveitamento dos projeteis incluídos em seu cilindro.
O demônio, a velha serpente, saturada de veneno, que já não mais se apraz em encanar-se no asqueroso réptil porque a indústria do soro antiofídico evoluiu o suficiente para neutralizar os efeitos de sua peçonha. Agora ele prefere travestir-se de mídia, o mais bem acabado e maquiavélico engenho para engodar e corromper. Ele usa e abusa dos mais modernos meios de comunicação para continuar soprando nos ouvidos das modernas Evas que, somente conseguirá subir ao trono de sua total emancipação quando tiver peito para encarar a Deus e dizer-lhe que ele já está velho, esclerosado e fora de forma. É chegado o momento d'ela assumir e ditar as regras do jogo da vida. No serpentário da mídia convive toda a espécie de cobras. A televisão, dado ao som de chocalho com que promove a poluição sonora, representa o cascavel, de picada mortífera e reconhecido como o mais peçonhento réptil da terra.
Entre Deus e o demônio situam-se o homem e a mulher, os antigos Adão e Eva multiplicados. Continuam na sua condição de criaturas de Deus e objetos da cobiça do demônio que os quer como parceiros seus na luta contra Deus. As modernas Evas nada têm de diferente da ex futura deusa a não ser no fato de que hoje perderam a vergonha de andarem nuas. Vaidosas, preferem continuar dando ouvidos às lisonjas do demônio da mídia que eleva ao exagero suas prendas físicas e cria-lhes a convicção de que elas existem para que todos os demais seres se curvem perante sua majestade, pretendente ao trono da divindade.
Os Adãos de hoje preferem continuar naquela de dizer a Deus que seguem comendo o fruto porque a companheira que ele lhes deu o convence de fazê-lo. E assim vamos na ginga deste trote que nos empurrará para fora do paraíso, só que desta vez, definitivamente.
Como percebe o leitor, a história é a mesma, os personagens se repetem bem como seus procedimentos. Se as conseqüências se repetirem, temos todo o direito de concluir que boa parte da humanidade se destina a continuar vivendo neste vale de lágrimas que sucedeu ao primitivo paraíso, agora definitivamente, o que vai mudando é o tempo que, inexoravelmente, nos leva para cada vez mais perto do final desta história. Por um ato insano da mulher o pecado entrou no mundo e a desordem abriu uma brecha no plano de Deus, só que por algum tempo, é bom que se diga. A presente vida não é nada mais do que um parêntese que se abriu ao pé da árvore da vida no paraíso e se fechará com o ruído da tampa do caixão de cada um, quando o pó voltará para a terra de onde veio e o sopro vital retornará para Deus que o concedeu, no dizer do Eclesiastes.
Ainda há pouco eu escrevia sobre o mistério. A insensatez, da assim dita mulher emancipada, bem como a acomodação do homem abastardado, para mim se constitui em verdadeiro mistério, tão grande é a dimensão de sua incompreensibilidade. Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, mas uma vez se pronuncia a Eclesiastes.
A velha serpente, agora travestida de mídia, deita e rola convencida como está de que finalmente, vai passar uma rasteira em Deus com a integração dos humanos em suas satânicas fileiras. Ele, porém se esquece de que uma pontinha deste mistério se levanta quando nos lembramos de que o Sangue de Cristo não se derramou em vão e de que sua Ressurreição gloriosa proclamou seu domínio definitivo sobre a morte e sobre o poder das trevas, seu representante. As portas do inferno não prevalecerão contra a glória e o poder de Deus. Cremos firmemente que uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas, assumirá em definitivo a imagem da autêntica mulher em substituição a velha Eva, representação caricata do que Deus sonhou para ser sua imagem.
José Cândido de Castro
MAIO DE 2007
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