NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO

Nunca, como agora, é tão importante para nós, repetir, com convicção, estas palavras do Pai Nosso.

Tentação, num sentido mais amplo, é uma provocação, um desafio lançado à nossa vontade com o intuito de arrastá-la à prática de uma ação qualquer. Pode transformar-se em sedução quando a pressão ou a atração for muito forte. A idéia de tentação está sempre vinculada à solicitação para a prática de uma ou mais ações censuráveis. Não se diz que alguém é tentado a praticar o bem. À medida que a liciosidade e o permissimismo avançam e que a perversão dos costumes toma o espaço das virtudes, a tentação deixa de ser uma armadilha para se converter em prática espontânea do vício como sendo o normal e o natural. É isto mesmo o que acontece hoje em dia. Tudo é natural, é normal. Normal é, por exemplo, ignorar a existência de Deus, de suas leis e de seus mandamentos. Da prática da religião nem se fala. É natural não honrar pai e mãe, matar, furtar, violentar e estuprar, destruir a fama alheia, cobiçar, inclusive a mulher do próximo. Tudo isto, hoje em dia, não constitui mais uma tentação e sim, prática pura e simples, sem mais delongas nem satisfações a dar.

A grande e irresistível tentação da vida moderna está no consumismo, aguçado e estimulado pela propaganda. Os avanços da tecnologia criaram infinitos atrativos para o consumo. As prateleiras dos super e mega mercados estão abarrotadas de atrações, de tentações. Acontece, porém, que, o que esta moderna tecnologia ainda não inventou foi a maneira de ganhar dinheiro para que o consumidor tenha com que satisfazer seus desejos. Prateleiras cheias, bolsos vazios. Daí a tentação de roubar e saquear. Não nos é lícito, contudo, cair na tentação, mesmo porque a imensa maioria destes produtos não é necessária para se viver. A título de exemplo citamos o telefone celular. Há muita gente que passa por necessidade e se priva, às vezes, do essencial para ostentar na cintura um aparelho de telefonia celular, bem mais dispendioso do que o convencional. As necessidades, muitas vezes são criadas pela propaganda ou pela imaginação. Nossos antepassados, sem tudo isto, viveram uma vida mais saudável e pacífica. Não é que eu seja contrário ao progresso e às vantagens que o mesmo significa. Sou sim, contra os exageros e contra o desequilíbrio e as injustiças provocadas pelo mesmo. É um contra senso que, no meio de tanto avanço, medre tanta pobreza e tanta miséria. Uns poucos viajam de aviões supersônicos. A maioria, noventa e cinco por cento, se arrasta numa luta sem fim para sobreviver. Esta é uma questão de justiça, ou seja, o dever moral de dar a cada um o que lhe é devido. Sem justiça, a vida social se torna numa imensa hipocrisia e num latrocínio organizado. A justiça distributiva é a incumbência de todos os que são investidos de uma autoridade que os obriga a distribuir os ônus e as vantagens da vida social, segundo os méritos e competências. A falta moral contra esta justiça é o favoritismo que se guia por preferências pessoais e interesseiras. Mas não é só a justiça distributiva que obriga aos governantes a serem justos na distribuição dos bens e riquezas. A justiça comutativa regula as relações das pessoas entre si, obrigando a cada um a dar aos outros o que lhes é devido, ou seja, um bem material, como o salário justo, seja um bem espiritual, como a fama e a reputação. A falta contra esta justiça constitui um roubo e, por isto, implica no dever moral da restituição. O patrão que sonega o salário devido ao operário, o maldizente que denigre a reputação do outro ou o calunia, o professor omisso, todos estes não satisfazem a justiça com um simples arrependimento interior, mas são obrigados a reparar o mal causado, restituindo ao outro o que lhes é devido. Para entender bem isto, basta colocar-se na posição do injustiçado. Procurai primeiro o reino de Deus e tudo o mais virá por acréscimo. A preocupação demasiada com as coisas materiais é a causa de todas as injustiças deste mundo e é a grande tentação que nos arrasta para o mau uso de nossa liberdade. Afinal o que significa tudo isto que traz a marca do tempo, do que passa, em comparação com o que é definitivo, eterno?

José Cândido de Castro

FEVEREIRO/2001


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Prof. José Cândido de  Castro
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