AINDA SOBRE A VIOLÊNCIA

Além do que temos escrito sobre as causas ontológicas da violência, hoje, pretendemos tecer algumas considerações sobre aquilo que podemos qualificar de imprudência daqueles que manipulam este assunto como se tratasse apenas de ordenhar uma cabrita. 

Nossas autoridades, ou seja, aqueles que tem o dever de coibir, por todos os meios, o avanço da violência, se dão por contentes de proibir a sociedade de andar armada e de reagir face à agressão. Isto significa tudo o que o bandido pediu a Deus: uma sociedade desarmada, inerte, anestesiada pelo medo e a garantia de que ela não irá reagir. Aí fica fácil para o agressor que, além de saber que não vai encontrar resistência, ainda se arma até aos dentes para garantir a prática do sadismo que circula em suas veias: matar por matar. É a carnificina perfeita.

  Enquanto isto, nossas Forças Armadas continuam confinadas em seus quartéis por ordem de seu comandante supremo, o presidente da república. Parece até uma casa de marimbondos que só atacam quando molestados. No entanto, é preciso atacar porque, no ataque, consiste a melhor defesa. Os estrategistas sabem disto. Senão, perguntem a Davi que liquidou o gigante Golias com uma única pedrada no meio da cara. As Forças Armadas existem, são sustentadas pelos cofres públicos para defenderem ativamente a sociedade e não apenas para repelirem ataques às suas trincheiras. A integridade do território nacional nada mais significa do que a integridade da pessoa humana. Isto não acontece porque o presidente da república não quer, porque ele se compraz com o sadismo de presenciar o brasileiro sucumbir aos golpes da violência bem no estilo do Imperador Nero que mandou incendiar Roma pelo puro prazer de presenciar um espetáculo excitante. Temos como enfrentar a violência, mas falta em nossos governantes a consciência do dever a cumprir e da responsabilidade que pesa sobre sua condição de eleitos pelo povo para governar, para garantir os direitos das pessoas.

É urgente organizar a sociedade para que aprenda a se defender. Cada quarteirão, cada comunidade rural tem que se constituir num bastiao de defesa e segurança. Se em cada uma dessas comunidades houver a presença de um policial, de um militar das Forças Armadas ou de um agente de segurança preparado para organizar o grupo e fazer dele uma colméia de abelhas, daquelas que ferroam quando atacadas, então a coisa iria mudar e queria ver quem se atreveria enfiar a mão na cumbuca onde moram as abelhas que trabalham, a ninguém molestam, mas que agredidas, sabem como se defenderem. Ao invés, de atuar para preparar a defesa do povo, o governo prefere tanger o rebanho de uma sociedade acovardada, amedrontada e pronta para se entregar, sem mais, às feras. E não pense você que o governo não promove isto. Ele não ensina nem exorta a que se defendam, ao contrário, aconselha a covardia. Nesta tarefa de abastardar, ele conta com dois grandes aliados: A Comissão de Direitos Humanos e o Código do Menor. Esta Comissão existe para defender e prestigiar os criminosos. Nunca tive notícia de que estes Senhoras e Senhoras tenham vindo a público para defender as vítimas, as viúvas, os órfãos e os que se movem em cadeiras de rodas. Basta, no entanto, que um bandido sofra um arranhão para que se alvorocem e contratem um exército de advogados em resguarda aos seus direitos, sagrados direitos de matar, estuprar, roubar em todos os tempos, modos e contra todas as pessoas. Se, contudo, o bandido morrer, então mandam celebrar missa de sétimo dia, com coroas de flores, com lágrimas, muitas lágrimas e protestos. Depois entram os advogados para requerer do governo indenizações por não terem dado suficiente cobertura ao bandido no exercício de sua profissão. Não falta até quem promova a inauguração de bustos ou estátuas de criminosos em logradouros públicos. Ser criminoso nesta terra é bom, ótimo negócio. Além de rendoso, é impune e tem garantido em vida a prática do crime e, depois de morto, as flores, uma sepultura gloriosa e uma memória ilustre.

O Código do Menor, por sua vez, abre espaço para a criança e o adolescente se dedicarem ao aprendizado do crime. Proíbem a criança e o jovem de trabalhar. A ociosidade é mãe de todos os vícios. Em contraposição, a lei áurea da pedagogia estabelece que a maneira mais eficaz de se educar consiste em preencher todo o tempo do educando com a prática de ações construtivas. O trabalho não só não causa dano mas ainda faz parte da essência da vida enquanto garante o alimento para sustentá-la. Primeiro viver, depois, o resto. Tão pouco o trabalho é incompatível com a escola. Há tempo para tudo, para trabalhar, para estudar, para descansar e para dormir. É questão de planejamento e de organização. Quando menino de oito anos, morando numa pequena propriedade rural, eu trabalhava com meus pais e irmãos, andava a pé doze quilômetros por dia para ir à escola, à tarde, jogava, com amigos, bola feita de pé de meia e à noite, dormia como um anjo. Sei lá se anjo dorme!... Pelo menos vela nosso sono para que seja restaurador de nossas energias. O trabalho nunca me prejudicou, antes, foi base da estrutura de minha vida. Gozo de ótima saúde e vigor físico e mental aos oitenta e um anos de vida e tenho quatro diplomas de Curso Superior. O que nunca fiz foi varar noites em orgias, sacudindo as ancas em bailes funks ao som estonteante de guitarras e zabumbas, regadas com bebedeiras e com drogas. Isto a criança e os jovens podem praticar por ser saudável e tonificante para os nervos e para a pituitária, mas trabalhar não pode porque faz mal para a saúde. A verdade é que, tanto a criança como o jovem podem e devem trabalhar, evidentemente, em trabalhos adequados e proporcionais à sua idade e forças. O que não devem é entregar-se à vadiagem, escola de crimes.

Vi, pela televisão, um repórter espinafrar um aposentado porque estava proporcionando trabalhos a menores. Eles vendiam frutas. As crianças estavam felizes porque além de ocuparem dignamente seu tempo, ainda se divertiam e garantiam um dinheirinho para ajudar sua mãe a criar mais quatro irmãos. O aposentado, coitado, esperneava para escapar da pena de morte que lhe impuseram proibindo-o de trabalhar. Proibir o trabalho num país onde cinco milhões morrem de fome e cinqüenta milhões vivem na mais extrema miséria é o mesmo que dar bom dia a cavalo. Este governo não tem autoridade para proibir coisíssima alguma, ele que não consegue, sequer, neutralizar a prática do crime. Tem mais é que sair fora para não atrapalhar aqueles que procuram acender uma vela em meio a esta escuridão. Era o que fazia o filósofo grego, Diógenes, com uma lanterna acesa em plena luz do dia à procura de um homem e que respondeu ao Imperador Alexandre Magno que lhe perguntava se precisava de alguma coisa. “Sim, respondeu ele, que saia da frente de meu sol”. O sol é o pouco que ainda nos resta e que será nossa sepultura no dia do churrasco universal.

José Cândido de Castro

JULHO DE 2001

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Prof. José Cândido de  Castro
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