Os efeitos sempre aparecem com muita clareza e transparência. O que sentimos e experimentamos, são, comumente, os efeitos. O difícil é determinar a causa ou as causas. Nem tudo o que reluz é ouro. O que, aparentemente, é apontado como causa, com freqüência, não passa de mero efeito. Tudo depende de diagnóstico certo e preciso. O grande desafio do médico no combate a uma doença consiste em descobrir o que a está causando. Só então poderá agir, com eficácia, para extirpá-la.
Nosso organismo social está contaminado por várias doenças, muitas delas, de suma gravidade. Entre tantas, verdadeiras epidemias, ocorre-nos aqui destacar a violência como uma das piores.
Sociólogos, psicólogos e estudiosos da questão quebram a cabeça em intermináveis pesquisas. A maioria, contudo, fica nos efeitos, poucos vislumbram as causas desta verdadeira chaga social. No entanto, se atentarmos bem para o verdadeiro sentido da palavra violência, chegaremos, com mais precisão, à sua causa.
Violência é o emprego da força física ou da coação moral para se alcançar o que com a razão não se conseguiu. Trata-se, portanto, de substituir o racional pelo irracional. Daí para diante, o bruto, o violento passa a assumir o comando das ações que pertencia à razão. Admitido, pois este processo de conversão do racional para o irracional como gerador daquilo que, no final, chamamos de violência, cumpre-nos agora entender como se processa esta metamorfose de um oposto para o outro.
Todo ser humano nasce com a expressão de uma vida meramente vegetativa e sensitiva. É o que se obtém daquilo que denominamos PRIMEIRO PARTO. Para que este ser alcance o estágio de HUMANO no sentido pleno da palavra precisa evoluir em direção à vida intelectiva e racional. É o que entendemos por SEGUNDO PARTO. Esta gestação, ao contrário da primeira, que se opera no útero materno, se desenvolve no seio da família pela ação educativa dos pais e formação dos princípios que irão, ao longo dos primeiro anos, plasmando o caráter, a personalidade, até culminar com o surgimento do uso da razão caracterizado pela consciência, a inteligência, a capacidade de reflexão e o poder de autodeterminação, que chamamos liberdade. Tanto assim que, quando o ser humano emerge da infância, dizemos que chegou à idade do uso da razão. Aí então, nasce o ser racional com todas as suas conseqüências, inclusive, a da imputabilidade. Se a família falhar e não realizar este segundo parto aquele ser primitivo estabilizar-se-á naquele estágio de vida meramente sensitiva. Então teremos só um animal e não um homem. Como tal, este animal que não teria o uso da razão para orientar seus atos, apelaria, certamente, para a violência como meio de concretizar seus desejos e preencher suas necessidades.
A estas alturas de nosso raciocínio você estará perguntando: Então, na falha da família como agente da educação e formação dos filhos, se situa a causa da violência? Sem sombra de dúvida, respondemos nós. Aquela instituição que deveria ser o manancial da vida racional está se constituindo em fonte de violência. Ninguém dá aquilo que não recebeu. Ninguém vive e age como um ser racional sem ter sido antes preparado pelo organismo familiar. À ausência da ação educadora da família corresponde a eclosão da violência com expressão de um processo de involução no binômio animal racional em benefício do irracional.
Agora que detectamos a causa da violência, cumpre-nos removê-la para que cessem seus efeitos. Não há porque divagar sobre o que fazer. Cada pai e mãe de família há que sair daqui com esta convicção: Tudo depende de mim. Se eu assumir minha condição de educador de meus filhos, se o vizinho fizer o mesmo, em pouco tempo renovaremos a face da terra e proclamaremos o primado da razão no relacionamento humano.
Para colaborar com os pais nesta tarefa de reconstrução dos lares estamos editando uma cartilha que, em breve, assim o esperamos, estaremos repassando às mãos daqueles que disserem sim ao nosso apelo.
José Cândido de Castro